PALAVRA DO ESPECIALISTA

Artigo - Crises de insônia e o uso de estimulantes do SNC na medicina do esporte

Sono, neuroquímica, recuperação e performance esportiva

Artigo - Crises de insônia e o uso de estimulantes do SNC na medicina do esporte Crédito: Divulgação

O uso de substâncias estimulantes do sistema nervoso central (SNC) ocupa posição relevante na Medicina do Esporte. Cafeína, compostos presentes em suplementos pré-treino e termogênicos e, em contextos clínicos específicos, medicamentos com ação psicoestimulante podem aumentar vigília, atenção, disposição e determinadas dimensões do desempenho físico e cognitivo.

Entretanto, existe um paradoxo importante: o mesmo estímulo neuroquímico utilizado para aumentar a performance durante o dia pode comprometer um dos principais mecanismos fisiológicos de recuperação do atleta — o sono.

Em indivíduos suscetíveis, especialmente quando há doses elevadas, consumo tardio, associação de diferentes estimulantes ou elevada carga de treinamento e estresse, podem surgir episódios de dificuldade para iniciar ou manter o sono, despertares precoces e redução do tempo total de sono. Na prática esportiva, cria-se então um cenário potencialmente contraproducente: busca-se melhorar a performance por meio da estimulação do SNC, mas o prejuízo subsequente ao sono pode interferir na recuperação e no desempenho dos dias seguintes. (BJSM)

1- O que chamamos de “crise de insônia”?

A expressão “crise de insônia” pode ser utilizada, em linguagem clínica e de divulgação, para descrever um episódio agudo de importante dificuldade para dormir. Entretanto, do ponto de vista técnico, é importante diferenciar manifestações distintas.

O indivíduo pode apresentar insônia inicial, caracterizada principalmente pela dificuldade em adormecer; insônia de manutenção, marcada por despertares recorrentes e dificuldade para retomar o sono; ou despertar precoce, quando acorda significativamente antes do horário pretendido e não consegue voltar a dormir.

No esporte, essas manifestações não devem ser analisadas isoladamente. Horário das competições, treinamentos noturnos, viagens, jet lag, ansiedade pré-competitiva, carga de treinamento e utilização de substâncias estimulantes podem modificar simultaneamente a quantidade e a qualidade do sono. Atletas de alto rendimento, inclusive, constituem uma população particularmente suscetível à inadequação do sono. (BJSM)

2- Os diferentes tipos de insônia

A insônia não se manifesta de uma única maneira. Na avaliação clínica e esportiva, é importante identificar em qual momento do período de sono ocorre a dificuldade, pois esse padrão pode fornecer informações relevantes sobre fatores desencadeantes, hábitos do atleta e possíveis efeitos de substâncias estimulantes.

De maneira didática, as manifestações podem ser divididas em três padrões principais:

2.1- Insônia inicial ou de conciliação:

Caracteriza-se pela dificuldade para iniciar o sono. O indivíduo deita-se, mas permanece acordado por período prolongado, frequentemente apresentando estado de hiperalerta, pensamentos persistentes ou sensação de que o organismo permanece “acelerado”. No contexto esportivo, pode ocorrer após treinamentos realizados muito tarde, competições noturnas, ansiedade pré-competitiva ou utilização tardia de cafeína e outros estimulantes.

2.2- Insônia intermediária ou de manutenção:

Ocorre quando o indivíduo consegue adormecer, porém apresenta despertares durante a noite acompanhados de dificuldade para retornar ao sono. O resultado pode ser um sono fragmentado, com redução de sua continuidade e pior percepção de recuperação ao despertar.

2.3- Insônia terminal ou despertar precoce:

Caracteriza-se pelo despertar antes do horário desejado, acompanhado da incapacidade ou dificuldade significativa para voltar a dormir. Por exemplo, o atleta que pretendia dormir até as 7 horas desperta espontaneamente às 4 ou 5 horas e permanece acordado. Esse padrão merece avaliação cuidadosa, pois pode estar associado a múltiplos fatores e não deve ser automaticamente atribuído ao uso de estimulantes.

Além dessa classificação pelo momento da noite, a insônia também pode ser caracterizada por sua duração e recorrência. Episódios de curta duração podem aparecer em períodos de estresse, viagens, mudanças de rotina, competições ou alterações no treinamento. Já o transtorno de insônia crônica envolve dificuldade persistente para iniciar ou manter o sono, ou despertar antes do desejado, acompanhada de repercussões durante o dia e critérios específicos de frequência e duração.

É importante ainda diferenciar insônia de privação voluntária de sono. Um atleta que dorme apenas cinco horas porque treina tarde e precisa acordar cedo não necessariamente apresenta insônia: pode simplesmente estar destinando tempo insuficiente ao sono. Da mesma forma, permanecer acordado devido ao efeito esperado de um estimulante não estabelece, isoladamente, o diagnóstico de transtorno de insônia.

Na Medicina do Esporte, portanto, identificar o padrão apresentado pelo atleta é mais útil do que simplesmente registrar que ele “dorme mal”. Dificuldade para adormecer, fragmentação do sono e despertar precoce representam fenômenos distintos e podem exigir investigação e estratégias diferentes.

Essa diferenciação torna-se especialmente importante diante do uso de estimulantes do SNC, pois dose, meia-vida, horário de administração, susceptibilidade individual e associação entre diferentes substâncias podem modificar de maneiras distintas a arquitetura, a duração e a continuidade do sono.

3- A neuroquímica por trás da vigília

O estado de vigília resulta da interação de diversos sistemas neuroquímicos, incluindo vias dopaminérgicas, noradrenérgicas, histaminérgicas, colinérgicas e orexinérgicas. Em paralelo, a adenosina participa de maneira importante da pressão homeostática do sono.

Durante períodos prolongados de vigília, mecanismos adenosinérgicos contribuem progressivamente para a sensação fisiológica de necessidade de dormir. A cafeína atua principalmente como antagonista dos receptores de adenosina, particularmente A1 e A2A, reduzindo temporariamente a percepção dessa pressão de sono e favorecendo a manutenção da vigília. 

Isso explica uma característica fundamental da farmacologia dos estimulantes: sentir menos sono não significa necessariamente precisar de menos sono.

O estimulante pode atenuar a sonolência e melhorar transitoriamente vigilância e atenção, mas não substitui os processos neurobiológicos que ocorrem durante o sono. A literatura neurofarmacológica demonstra, inclusive, que a cafeína pode reduzir algumas consequências da privação de sono sobre alerta e atenção, mas não elimina os déficits decorrentes de perda importante de sono, sobretudo em funções cognitivas mais complexas.

4- Cafeína: ergogênico e potencial disruptor do sono

A cafeína merece atenção especial porque está amplamente incorporada ao universo esportivo. Pode estar presente em café, bebidas energéticas, cápsulas, géis, pré-treinos e formulações termogênicas.

Seu potencial ergogênico é bem estabelecido em diferentes situações esportivas. O problema surge quando dose, horário de administração e susceptibilidade individual não são considerados.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em Sleep Medicine Reviews mostrou que, no conjunto dos estudos analisados, a cafeína reduziu o tempo total de sono em aproximadamente 45 minutos, diminuiu a eficiência do sono e aumentou tanto a latência para adormecer quanto o tempo acordado depois do início do sono. Também foram observadas alterações na distribuição dos estágios do sono, incluindo redução do sono profundo.

Em atletas especificamente, uma revisão sistemática de ensaios randomizados encontrou resultados heterogêneos, mas concluiu que a suplementação com cafeína pode prejudicar o sono e, consequentemente, deve ser individualizada considerando dose, horário de utilização, hábito de consumo e resposta pessoal.

Uma meta-análise mais recente, voltada ao uso de cafeína antes de treinamentos ou competições no final da tarde/noite, encontrou redução da eficiência do sono e importante percepção subjetiva de piora do sono pelos atletas, embora alguns desfechos objetivos tenham apresentado maior incerteza.

Portanto, não existe simplesmente a pergunta “cafeína funciona?”.

Na Medicina do Esporte, outra pergunta é igualmente importante:

Qual é o custo fisiológico dessa estimulação para aquele atleta e naquele horário?

5- Pré-treinos, termogênicos e a soma dos estímulos

Outro aspecto relevante é que o atleta nem sempre percebe a quantidade total de estímulo farmacológico consumida ao longo do dia.

Café pela manhã, bebida energética à tarde, pré-treino antes da musculação e eventualmente outros produtos com atividade estimulante podem produzir uma exposição acumulada.

Além disso, suplementos podem conter diferentes compostos com propriedades simpaticomiméticas ou estimulantes. Assim, a avaliação clínica não deve perguntar apenas “quanto café você toma?”, mas investigar todas as fontes de estimulantes utilizadas pelo atleta.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, envolvendo 48 estudos e 940 atletas, encontrou maior ocorrência autorreferida de diversos efeitos adversos após cafeína, incluindo insônia, ansiedade, nervosismo e taquicardia.

6- O ciclo estimulante–insônia–estimulante

Um dos fenômenos mais preocupantes é a formação de um ciclo comportamental e neurofisiológico:

estimulante → piora do sono → fadiga no dia seguinte → aumento do estimulante → nova piora do sono.

O atleta dorme mal e, no dia seguinte, utiliza mais cafeína ou outro estimulante para compensar fadiga, sonolência e redução de concentração. O aumento da exposição pode novamente prejudicar o sono da noite seguinte.

Com a repetição desse padrão, a substância inicialmente utilizada para otimizar a performance passa a ser utilizada parcialmente para compensar as consequências da própria privação de sono.

É justamente nesse ponto que a avaliação médica deve diferenciar fadiga verdadeira de falta de estimulação farmacológica.

7- Sono também faz parte da performance

A recuperação esportiva não termina quando o atleta deixa a academia ou o campo de treinamento.

O sono participa de processos essenciais à recuperação cerebral e corporal. Atletas com sono inadequado podem apresentar alterações de atenção, humor, recuperação e diferentes componentes do desempenho. O consenso publicado no British Journal of Sports Medicine destaca que atletas são particularmente suscetíveis a sono insuficiente e fragmentado e recomenda que o sono seja abordado de maneira individualizada dentro do planejamento esportivo.

Assim, existe uma mudança conceitual importante na Medicina do Esporte contemporânea parte da premissa de que o sono não deve ser considerado apenas repouso; deve ser considerado uma variável de recuperação e performance.

O Comitê Olímpico Internacional também destacou, em consenso publicado em 2026, a associação entre duração inadequada ou irregularidade do sono e piores desfechos relacionados à saúde e ao desempenho do atleta.

8- Quando investigar além dos estimulantes?

Nem toda insônia em um atleta que utiliza estimulantes é causada exclusivamente por eles.

Quando os episódios são persistentes ou recorrentes, a avaliação deve considerar carga excessiva de treinamento, ansiedade, alterações de ritmo circadiano, viagens frequentes, horários irregulares de treino, álcool, outros medicamentos, distúrbios respiratórios do sono e condições clínicas ou psiquiátricas associadas.

Esse raciocínio é particularmente importante porque simplesmente acrescentar um agente sedativo para “corrigir” o efeito de um estimulante pode mascarar o problema original e criar uma lógica farmacológica inadequada de estimular durante o dia e sedar durante a noite.

Nos quadros persistentes de transtorno de insônia, intervenções comportamentais estruturadas, particularmente a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I/CBT-I), permanecem uma abordagem terapêutica central.

9- Medicina do Esporte: estimular menos pode significar performar melhor

A utilização racional de estimulantes exige individualização. Dose, horário, modalidade esportiva, momento da competição, cronotipo, metabolismo individual, qualidade basal do sono e demais substâncias utilizadas devem fazer parte da avaliação.

Isso também significa compreender que a maior dose capaz de aumentar a estimulação não é necessariamente a melhor dose para a performance global.

Se determinado protocolo melhora uma sessão de treinamento, mas reduz significativamente a qualidade do sono e prejudica a recuperação subsequente, seu benefício líquido pode ser menor do que parece.

Existe ainda uma dimensão antidoping. Na lista da WADA de 2026, diversos estimulantes permanecem sujeitos às regras de proibição em competição. A cafeína, por sua vez, não integra a lista de substâncias proibidas, mas permanece no Programa de Monitoramento da WADA em competição, juntamente com outras substâncias estimulantes monitoradas.

10- Considerações Finais

Os estimulantes do sistema nervoso central possuem aplicações legítimas e, no caso de determinadas substâncias como a cafeína, podem apresentar efeitos ergogênicos relevantes. Entretanto, a performance esportiva não pode ser avaliada apenas pelas horas em que o atleta está acordado.

Treinar mais estimulado não significa necessariamente recuperar melhor.

Quando o estímulo farmacológico compromete o sono, surge um conflito entre performance aguda e recuperação. Crises de insônia, despertares recorrentes, redução do sono profundo ou diminuição do tempo total de sono devem servir como sinais para reavaliar dose, horário, combinações de substâncias, rotina de treinamento e condições clínicas associadas.

Na Medicina do Esporte moderna, portanto, otimizar a performance significa encontrar equilíbrio entre estimulação, treinamento, recuperação e sono.

O objetivo não deve ser simplesmente manter o atleta acordado e produtivo por mais tempo, mas preservar os mecanismos fisiológicos que permitem que ele continue apresentando desempenho ao longo do tempo.

O estimulante pode aumentar a vigília. O sono adequado sustenta a recuperação. E a verdadeira performance depende do equilíbrio entre ambos.

Referências Bibliográficas

Walsh NP, Halson SL, Sargent C, et al. Sleep and the athlete: narrative review and 2021 expert consensus recommendations. British Journal of Sports Medicine. 2021;55:356–368.

Sajadi Hezaveh Z, et al. Does caffeine supplementation affect sleep in athletes? A systematic review of nine randomized controlled trials. 2024.

Gardiner C, et al. The effect of caffeine on subsequent sleep: A systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews. 2023.

Reichert CF, Deboer T, Landolt HP. Adenosine, caffeine, and sleep-wake regulation: state of the science and perspectives. Journal of Sleep Research. 2022.

Kocak A, et al. The Effect of Consuming Caffeine Before Late Afternoon/Evening Training or Competition on Sleep: A Systematic Review with Meta-Analysis. 2025.

World Anti-Doping Agency. 2026 Monitoring Program.

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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