SAÚDE

Reganho de peso após o emagrecimento: por que acontece

A obesidade, uma condição crônica e recidivante que atinge quase dois bilhões de adultos em todo o mundo, está associada ao aumento do risco de morbidade e mortalidade prematura

Reganho de peso após o emagrecimento: por que acontece Crédito: Divulgação

Programas comportamentais de emagrecimento, que oferecem suporte para a adoção de uma dieta hipocalórica e o aumento da atividade física, constituem a base do tratamento.

O reganho de peso é uma queixa frequente entre pacientes com sobrepeso e obesidade que passaram por tratamento para emagrecimento ou que estão em tratamento, pois o organismo tende a “resistir” à perda ponderal e a retornar ao estado anterior. O corpo possui um sistema regulador de fome e saciedade, mediado por adaptações hormonais, que se ajusta ao maior peso previamente alcançado. Uma vez estabelecida a obesidade, esse mecanismo passa a modular a ingestão calórica de forma a sustentar esse peso corporal.

Regulação hormonal e adaptações metabólicas

Diversos hormônios desempenham papel central na regulação do gasto energético e do apetite. A leptina, por exemplo, produzida pelos adipócitos, promove a saciedade e aumenta o gasto energético. Seus níveis diminuem com a redução da massa gorda, enquanto a resistência aos seus receptores frequentemente presente na obesidade pode persistir, contribuindo para o aumento da fome e a redução da saciedade.

Além disso, a grelina, conhecida como hormônio da fome, apresenta aumento sustentado, estimulando neurônios orexígenos (responsáveis por estimular o apetite) no hipotálamo e elevando o apetite, especialmente por alimentos mais calóricos. Paralelamente, observa-se redução da triiodotironina (T3), hormônio tireoidiano ativo, o que diminui o gasto energético basal e contribui para a chamada adaptação metabólica, tornando o organismo mais eficiente em economizar energia e, consequentemente, reduzindo o ritmo metabólico.

Um regulador adicional importante é a insulina responsável pelo metabolismo dos macronutrientes que passa a atuar de forma mais eficiente no armazenamento energético, favorecendo a reposição dos estoques de gordura.

Hormônios também relevantes na regulação do peso incluem o peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1), que atua no controle do apetite e do gasto energético sua redução pode levar ao aumento da ingestão alimentar. O peptídeo YY (PYY), liberado pelo íleo e cólon em resposta à alimentação, promove saciedade ao atuar nos receptores Y2 do neuropeptídeo Y no sistema nervoso central; no entanto, seus níveis podem diminuir com a perda de peso, reduzindo a sensação de plenitude. 

Essa redução está associada à menor inibição das vias orexígenas, favorecendo a ação do neuropeptídeo Y (NPY), um potente estimulador do apetite, que aumenta durante a restrição calórica, promovendo maior ingestão alimentar, redução do gasto energético e resistência à perda de peso.

Por fim, a perda de massa magra durante o emagrecimento também contribui para a redução do gasto energético basal, dificultando a manutenção dos resultados.

Em conjunto, essas alterações contribuem para a resistência do organismo à perda de peso contínua, favorecendo a estagnação do emagrecimento e o retorno ao peso prévio.

Portanto, o reganho de peso não deve ser interpretado como uma falha individual, falta de força de vontade ou ausência de comprometimento com o tratamento. Trata-se de uma resposta biológica complexa, resultado de adaptações hormonais, metabólicas e neurais que favorecem a recuperação do peso perdido. Por esse motivo, dietas extremamente restritivas e estratégias que promovem perda de peso rápida tendem a ser pouco sustentáveis, uma vez que intensificam esses mecanismos compensatórios. 

O tratamento da obesidade deve ser compreendido como um cuidado contínuo, cujo foco não é apenas promover o emagrecimento, mas também preservar a massa muscular, minimizar as adaptações metabólicas e desenvolver hábitos alimentares e de atividade física que possam ser mantidos ao longo da vida. Em muitos casos, a associação entre acompanhamento nutricional, intervenção comportamental e tratamento farmacológico é necessária para favorecer a manutenção dos resultados e reduzir o risco de recidiva.

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