PALAVRA DO ESPECIALISTA

Artigo - As canetas tornaram a perda de peso possível para milhões. Agora a pergunta é outra: o que o corpo pode estar perdendo junto?

Tem uma cena que está se repetindo em muitos consultórios, academias e grupos de amigos.

A pessoa perdeu 12, 15, 20 quilos. A roupa voltou a servir. O espelho mudou. A glicose melhorou. O fôlego para subir escadas apareceu de novo.

 

Artigo - As canetas tornaram a perda de peso possível para milhões. Agora a pergunta é outra: o que o corpo pode estar perdendo junto? Crédito: Divulgação

Mas, depois da comemoração, vem uma pergunta que quase sempre chega tarde: esses quilos que foram embora eram principalmente gordura?  

Os medicamentos baseados em GLP-1 mudaram a medicina da obesidade. Eles ajudam a reduzir apetite, compulsão e aquele pensamento constante em comida que muita gente descreve como food noise. Para pessoas que passaram anos fazendo dieta, recuperando peso e se culpando por isso, a diferença pode ser enorme.

Só que emagrecer não é apenas fazer a balança descer. É possível ficar mais leve e, ao mesmo tempo, mais fraco.  

É possível comemorar um numero menor na balança mas que o corpo perdeu performance.

Essa é a próxima conversa que precisamos ter sobre GLP-1.

A balança não conta a história inteira

Quando alguém emagrece, perde gordura. Mas não só gordura.

Isso acontece com dieta, jejum, cirurgia bariátrica, exercício, medicamentos ou uma combinação de tudo isso. Em um déficit calórico relevante, o corpo também muda água corporal, glicogênio e parte do chamado tecido magro.

E aqui mora uma confusão comum: massa magra não é sinônimo perfeito de músculo.

Exames de composição corporal, como o DXA, agrupam como massa magra a musculatura, mas também água, glicogênio, órgãos e outros tecidos. Por isso, olhar um laudo e concluir que toda redução de massa magra significa “perdi músculo” é simplificar demais.

Músculo importa. Para estética, claro. Mas, principalmente, para força, mobilidade, equilíbrio, saúde óssea, metabolismo, independência e qualidade de vida quando a idade chega.

A pergunta mais inteligente não é apenas “quanto peso perdi?”. É “como ficou meu corpo depois que perdi esse peso?”.

Nos estudos, a imagem é mais equilibrada do que os extremos da internet fazem parecer.

No subestudo de composição corporal do STEP 1, pessoas tratadas com semaglutida perderam, em média, 15% do peso em 68 semanas. A queda de gordura corporal foi maior do que a queda de tecido magro, e a proporção de massa magra em relação ao peso total aumentou.

Na tirzepatida, o subestudo do SURMOUNT-1 encontrou um dado fácil de visualizar: de uma perda média de 21,3% do peso em 72 semanas, aproximadamente três quartos vieram de gordura e cerca de um quarto de massa magra.

Isso não significa que GLP-1 “queima músculo”. Significa que uma perda de peso grande precisa ser acompanhada como uma mudança de corpo inteiro, não como uma disputa entre a caneta e a balança.

Proteína entrega matéria-prima. Treino diz o que fazer com ela

A proteína é importante porque fornece aminoácidos necessários para manter e reparar tecidos. Mas proteína, sozinha, não resolve a história. Pense em uma obra:

A proteína entrega os tijolos. O treino de força mostra ao corpo que ainda existe uma casa para construir e manter de pé.

Por isso, musculação, treino resistido, pilates com sobrecarga bem estruturada e outros estímulos de força não deveriam aparecer apenas quando alguém quer “definir” o corpo. Eles são parte do tratamento quando o objetivo é emagrecer sem abrir mão de capacidade física.

O treino não precisa ser perfeito. Não precisa começar com seis dias por semana, carga máxima e uma rotina impossível de sustentar.

Precisa ser consistente, progressivo e adaptado ao ponto de partida de cada pessoa.

Para alguém que ficou anos sedentário, duas sessões bem feitas por semana podem valer mais do que um plano heroico abandonado em 15 dias. Para quem já treina, acompanhar carga, repetições, disposição e recuperação pode ser mais útil do que se assustar com qualquer oscilação isolada no laudo de composição corporal.

E a creatina?

A creatina merece uma conversa menos publicitária e mais honesta.

Ela é um dos suplementos mais estudados para desempenho em exercícios de alta intensidade e força. Pode ser uma aliada interessante para pessoas que treinam e querem preservar ou recuperar performance durante uma fase de emagrecimento.

Mas ainda não existem ensaios clínicos robustos mostrando que a creatina, por si só, impede a perda de massa muscular associada ao uso de GLP-1.

Isso não diminui sua relevância. Apenas coloca cada coisa no lugar certo.

Creatina pode fazer parte de uma estratégia bem pensada. Não substitui treino. Não corrige uma dieta com pouca proteína. Não resolve náusea, baixa ingestão calórica ou perda de peso acelerada demais.

O que vale acompanhar na prática

Não é preciso transformar todo emagrecimento em uma planilha obsessiva. Mas alguns sinais deveriam ter tanto espaço quanto o número na balança.

  • Força e capacidade física: como estão as cargas, as repetições, o fôlego e a disposição para tarefas comuns?
  • Comida de verdade: a fome diminuiu, mas proteína, fibras e micronutrientes não podem desaparecer da rotina.
  • Ritmo da perda: perder peso rápido demais pode dificultar alimentação adequada e recuperação.
  • Composição corporal, quando fizer sentido: DXA, bioimpedância e medidas seriadas ajudam a enxergar tendências. Um único resultado não é sentença final e nem adianta fazer exame toda hora, menos dados e mais qualidade importa.

A conclusão que importa

Por fim, a caneta não escolhe o prato, não faz a pessoa treinar e não mede sua força ao longo dos meses.

A próxima etapa é sair da ideia de “perder o máximo de quilos” e entrar na ideia de “construir o melhor corpo possível dentro daquele novo peso”.

Mais leve, sim. Mas também mais forte.

Porque emagrecer bem não é só perder gordura. É não perder, no caminho, aquilo que vai fazer falta quando a balança deixar de ser o centro da conversa.

Referências

1.Wilding JPH, et al. Impact of Semaglutide on Body Composition in Adults With Overweight or Obesity: Exploratory Analysis of the STEP 1 Study. Journal of the Endocrine Society. 2021.

2.Look M, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2025.

3.Pratley RE, et al. Apitegromab for lean mass preservation during tirzepatide-induced weight loss: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 2 trial. Nature Medicine. 2026.

4.U.S. Food and Drug Administration. FDA Approves First Therapy to Target Muscle Loss in Spinal Muscular Atrophy. 2026.

5.Alawadhi AA, et al. LEAN-PREP: resistance exercise and protein during semaglutide and tirzepatide therapy. BMJ Open. 2026. Protocolo de ensaio clínico ainda em andamento.

Nota editorial: Este artigo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica, nutricional ou de educação física individualizada. A indicação de medicamentos, proteínas, creatina ou qualquer suplementação depende do contexto clínico, do padrão alimentar e dos objetivos de cada pessoa.

Danilo Bertasi

Especialista

Danilo Bertasi, CEO e cofundador da TML (The Men's & The Ladies), healthtech especializada em saúde metabólica, medicina preventiva e cuidados personalizados.

Formado em Economia pela FEA-USP, Danilo iniciou a carreira no mercado financeiro, com passagens pelo Banco BBM e pelo programa Global Trainee da Ambev. Em 2021, decidiu empreender inspirado em modelos internacionais de saúde digital que integravam atendimento médico, tecnologia e acompanhamento contínuo do paciente, em um momento em que esse formato ainda era pouco explorado no Brasil.

A proposta chamou a atenção de investidores como Adventures, Neuron Ventures (fundo de venture capital da Eurofarma) e MIT Alumni Angels. Desde então, a empresa evoluiu e já ajudou mais de 100 mil pacientes em jornadas de saúde e bem-estar, consolidando-se como uma plataforma focada em saúde metabólica.

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