PALAVRA DO ESPECIALISTA

Alergias e Crises Alérgicas Agudas: como reconhecer e reverter uma reação potencialmente grave

As reações alérgicas agudas constituem manifestações clínicas extremamente variáveis, podendo apresentar-se desde um simples prurido cutâneo ou urticária localizada até uma reação sistêmica grave, com edema de vias aéreas, broncoespasmo, hipotensão e choque anafilático

Alergias e Crises Alérgicas Agudas: como reconhecer e reverter uma reação potencialmente grave Crédito: Divulgação

No ambiente esportivo e ambulatorial, o tema merece atenção especial. Alimentos, suplementos nutricionais, medicamentos, picadas de insetos e diferentes substâncias utilizadas durante treinamentos ou tratamentos podem funcionar como desencadeadores de reações de hipersensibilidade.

Embora muitas crises apresentem evolução benigna, reconhecer precocemente os sinais de gravidade é fundamental, pois a anafilaxia pode progredir rapidamente e exige intervenção imediata.

1. O que acontece durante uma reação alérgica?

As reações de hipersensibilidade imediata frequentemente envolvem ativação de mastócitos e basófilos e liberação de mediadores inflamatórios, entre eles a histamina.

Em mecanismos mediados por imunoglobulina E (IgE), o contato com determinado alérgeno pode desencadear degranulação celular e liberação de substâncias capazes de produzir vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular, edema, prurido, urticária, broncoconstrição e alterações cardiovasculares.

Entretanto, nem toda reação clínica semelhante à alergia é necessariamente mediada por IgE. Existem diferentes mecanismos imunológicos e não imunológicos capazes de produzir manifestações semelhantes.

Por esse motivo, identificar o agente desencadeante posteriormente pode ser tão importante quanto controlar o episódio agudo.

2. Da urticária à anafilaxia

É importante diferenciar uma reação predominantemente cutânea de uma reação sistêmica potencialmente fatal.

Urticária, eritema e prurido isolados, na ausência de comprometimento respiratório ou cardiovascular, geralmente representam manifestações menos graves. Nesses casos, anti-histamínicos H1 podem desempenhar papel importante no controle dos sintomas.

O cenário muda quando aparecem manifestações como edema de língua ou garganta, alteração da voz, estridor, dispneia, sibilância, hipoxemia, hipotensão, síncope, alteração da consciência ou sinais de choque.

Nessas circunstâncias deve-se considerar imediatamente a possibilidade de anafilaxia.

Um detalhe importante é que manifestações cutâneas podem estar ausentes. Portanto, a inexistência de urticária não exclui uma reação anafilática.

 3. Anafilaxia é uma emergência médica

A anafilaxia caracteriza-se por uma reação sistêmica aguda potencialmente fatal. O comprometimento das vias aéreas, da respiração ou da circulação representa o principal marcador de gravidade.

Diante da suspeita clínica, não se deve aguardar que todos os sintomas apareçam para iniciar o atendimento.

A primeira medida consiste em interromper a exposição ao possível agente desencadeante sempre que isso for possível, por exemplo, interrompendo imediatamente a administração de determinado medicamento.

Simultaneamente, deve-se avaliar sistematicamente o paciente segundo os princípios de vias aéreas, respiração e circulação.

 4. Adrenalina: o medicamento fundamental na anafilaxia

Na anafilaxia, a adrenalina, também denominada epinefrina,  administrada por via intramuscular constitui o tratamento farmacológico de primeira linha.

Sua importância decorre de múltiplos efeitos fisiológicos. A estimulação dos receptores alfa-adrenérgicos promove vasoconstrição e contribui para elevar a resistência vascular e reduzir o edema das mucosas. Paralelamente, a estimulação beta-adrenérgica favorece broncodilatação e suporte cardiovascular. 

Em protocolos destinados a profissionais de saúde, a região anterolateral da coxa é o local recomendado para administração intramuscular.

Na presença de persistência dos sinais de anafilaxia, protocolos internacionais estabelecem a possibilidade de repetição da adrenalina intramuscular em intervalos de aproximadamente cinco minutos, conforme avaliação clínica e protocolo assistencial.

É importante ressaltar que adrenalina intravenosa não deve ser considerada simplesmente uma alternativa à via intramuscular. Em pacientes com circulação espontânea, sua utilização exige profissionais experientes, monitorização e ambiente adequado devido ao risco de hipertensão grave, taquiarritmias e outras complicações cardiovasculares.

5. Anti-histamínicos não substituem a adrenalina

Um dos equívocos mais relevantes no tratamento das reações alérgicas graves é considerar o anti-histamínico como tratamento principal da anafilaxia.

Anti-histamínicos podem ser úteis especialmente para manifestações cutâneas, como urticária e prurido. Entretanto, não devem retardar a administração de adrenalina quando existem manifestações respiratórias ou cardiovasculares compatíveis com anafilaxia.

Essa distinção é fundamental, pois uma  pessoa com algumas placas urticariformes e prurido apresenta uma situação completamente diferente daquela que desenvolve edema de vias aéreas, broncoespasmo ou hipotensão.

6- Medicamentos corticosteroides.

Durante muitos anos, corticosteroides foram incorporados quase automaticamente aos protocolos de anafilaxia.

Atualmente, entretanto, existe maior cautela em relação ao seu papel no tratamento imediato.

Isso ocorre porque seu início de ação não é suficientemente rápido para reverter os principais mecanismos responsáveis pela ameaça imediata à vida durante uma anafilaxia.

Dessa maneira, corticosteroides jamais devem substituir ou retardar a administração de adrenalina intramuscular.

Seu emprego pode ser considerado em situações específicas e conforme avaliação clínica, mas deve ser compreendido como tratamento complementar e não como intervenção capaz de substituir a adrenalina na emergência anafilática.

7. Oxigênio, fluidoterapia e broncodilatadores

Pacientes com comprometimento respiratório ou cardiovascular podem necessitar de suporte adicional.

Oxigênio suplementar em alto fluxo pode ser necessário nos casos de hipoxemia ou comprometimento cardiorrespiratório.

A anafilaxia também pode provocar vasodilatação intensa e extravasamento de líquido do compartimento intravascular, produzindo hipotensão significativa. Nesses pacientes, a reposição intravenosa de cristaloides pode tornar-se necessária.

Quando existe broncoespasmo persistente, broncodilatadores beta-2 agonistas, como o salbutamol, podem ser utilizados como tratamento complementar.

Mais uma vez, entretanto, o conceito central permanece: nenhuma dessas intervenções substitui a adrenalina intramuscular quando existe anafilaxia.

8. Posicionamento do paciente também importa

Um aspecto aparentemente simples pode apresentar grande relevância clínica: o posicionamento.

Pacientes com comprometimento circulatório geralmente devem permanecer deitados, eventualmente com elevação dos membros inferiores, conforme a condição clínica.

Quando a dificuldade respiratória predomina, uma posição mais elevada do tronco pode proporcionar maior conforto respiratório.

O que deve ser evitado é fazer com que um paciente hipotenso ou em evolução para choque permaneça subitamente em pé ou caminhe.

9. Quando a alergia aparece durante o exercício

No ambiente esportivo existe ainda uma condição particularmente interessante: a anafilaxia induzida pelo exercício.

Em alguns indivíduos, o exercício físico pode atuar como elemento desencadeador ou cofator de uma reação sistêmica. Existe também a chamada anafilaxia induzida pelo exercício dependente de alimento, na qual determinada alimentação é tolerada normalmente quando consumida isoladamente, mas pode desencadear reação quando associada ao exercício dentro de determinado intervalo.

Outros cofatores, incluindo medicamentos e condições ambientais, também podem modificar o limiar para determinadas reações.

Por isso, episódios recorrentes de urticária, edema, dispneia ou mal-estar sistêmico associados ao treinamento merecem investigação médica especializada.

10. Suplementos também podem desencadear reações

O fato de determinado produto ser classificado como suplemento alimentar não significa ausência de potencial alergênico.

Proteínas derivadas do leite, ovos, soja, peixes e outras fontes alimentares podem desencadear reações em indivíduos sensibilizados. Além disso, produtos industrializados podem conter diferentes ingredientes, aromatizantes, corantes, excipientes ou traços de outros alimentos.

Diante de uma reação temporalmente associada à utilização de um suplemento, é importante analisar detalhadamente sua composição antes de atribuir o episódio simplesmente ao seu principal ingrediente.

A investigação torna-se ainda mais relevante quando o indivíduo utiliza simultaneamente vários suplementos, medicamentos ou substâncias ergogênicas.

11. Investigação Clínica de quadros alérgicos

Reverter a manifestação aguda representa apenas a primeira etapa.

Após uma suspeita de anafilaxia, deve-se procurar estabelecer qual substância desencadeou a reação e quais estratégias serão necessárias para evitar uma nova exposição.

A investigação pode envolver história clínica detalhada, avaliação por alergologista e, quando indicados, testes específicos.

Pacientes considerados sob risco de novos episódios podem ainda necessitar de plano individualizado de emergência e orientação quanto ao uso de autoinjetores de adrenalina, conforme disponibilidade e indicação médica.

12- Conclusão

As crises alérgicas representam um espectro clínico que varia de manifestações cutâneas autolimitadas a emergências potencialmente fatais.

O princípio mais importante consiste em reconhecer precocemente quando uma reação deixa de ser apenas uma manifestação dermatológica e passa a comprometer vias aéreas, respiração ou circulação.

Os Anti-histamínicos apresentam papel importante no tratamento de manifestações predominantemente cutâneas, enquanto corticosteroides possuem indicações complementares específicas. Entretanto, diante de uma verdadeira anafilaxia, a adrenalina intramuscular permanece como intervenção farmacológica fundamental e não deve ser retardada pela tentativa de tratamento com medicamentos secundários.

No esporte, na suplementação e na prática ambulatorial, conhecer esses princípios significa estar preparado para diferenciar uma reação incômoda de uma situação potencialmente fatal, diferença que, em determinados casos, pode representar literalmente a preservação da vida.

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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