O uso de medicamentos agonistas do GLP-1 tem ampliado as possibilidades de tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Entre os efeitos esperados está a redução do apetite, mecanismo que contribui para o controle metabólico e glicêmico quando ocorre dentro dos parâmetros previstos para a terapia.
No entanto, a psicóloga Maria Klien chama a atenção para uma condição que tem observado com frequência na prática clínica: a ausência persistente da sensação de fome, mesmo por longos períodos. Para descrever esse quadro, ela propõe o termo agonorexia, expressão que reúne os agonistas do GLP-1 e a redução excessiva do apetite.
Segundo Maria Klien, o conceito não se refere a um transtorno alimentar, mas a um fenômeno que pode alterar a forma como o indivíduo se relaciona com a alimentação durante o tratamento.
“A redução do apetite faz parte da ação desses medicamentos e pode trazer benefícios importantes quando ocorre de forma equilibrada. O que exige atenção é quando a fome deixa de existir por completo. A ausência prolongada desse sinal fisiológico não representa, por si só, um indicador de saúde e precisa ser acompanhada por uma equipe multiprofissional”, afirma.
A psicóloga explica que a fome exerce uma função biológica essencial na manutenção do organismo. Quando esse mecanismo permanece inibido por tempo prolongado, podem surgir consequências como redução da ingestão de proteínas, perda de massa muscular, diminuição da força física e alterações metabólicas.
Na avaliação de Maria Klien, a valorização do emagrecimento rápido também influencia a forma como muitas pessoas interpretam os efeitos do tratamento.
“Tenho acompanhado pacientes que comemoram o fato de não sentir fome. Ao mesmo tempo, começam a apresentar perda de força, cansaço e dificuldade para atingir as necessidades nutricionais diárias. O emagrecimento precisa ser analisado de forma mais ampla, considerando também a preservação da massa muscular, da funcionalidade e da saúde metabólica”, destaca.
Para a especialista, o acompanhamento clínico deve considerar não apenas a redução do peso corporal, mas também indicadores relacionados à composição corporal, à alimentação e à resposta individual ao tratamento. O ajuste da dose do medicamento, a orientação nutricional e o monitoramento contínuo fazem parte desse processo.
Ao propor o conceito de agonorexia, Maria Klien busca ampliar o debate sobre os efeitos da supressão prolongada da fome e reforçar a necessidade de diferenciar a saciedade terapêutica da ausência persistente do apetite.
“O avanço da medicina trouxe recursos importantes para o tratamento da obesidade. O desafio está em utilizar essas ferramentas preservando os mecanismos fisiológicos que sustentam o funcionamento do organismo. O objetivo do tratamento não é eliminar a fome, mas promover saúde com equilíbrio”, conclui.

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