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Artigo - A era dos peptídeos nas ciências médicas e do esporte: principais tipos e mecanismos de ação no organismo humano

Podemos iniciar esse artigo mencionando que peptídeos são biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos através de ligações peptídicas

Artigo - A era dos peptídeos nas ciências médicas e do esporte: principais tipos e mecanismos de ação no organismo humano Crédito: Banco de imagens/IA generativa

Eles podem variar desde dipeptídeos simples até polipeptídeos maiores, sendo estruturalmente distintos das proteínas apenas pelo número de aminoácidos que os constituem. Independentemente do tamanho, os peptídeos desempenham papéis biológicos fundamentais no organismo humano, incluindo funções hormonais, neuromoduladoras e imunológicas.

Nos últimos anos, a investigação científica e clínica tem destacado a importância dos peptídeos não apenas no contexto fisiológico natural, mas também na medicina translacional e na ciência do esporte.

Esta “era dos peptídeos” reflete o reconhecimento das suas múltiplas aplicações terapêuticas, nutricionais e de modulação fisiológica, bem como os seus mecanismos de ação que podem ser explorados para otimizar performance atlética e saúde metabólica.

1- Classificação Geral dos Peptídeos

Peptídeos podem ser classificados de várias formas, incluindo pela sua origem (endógenos ou exógenos), pela função biológica ou pela forma de ação no organismo. Entre esses, destacam-se:

1.1. Peptídeos hormonais endógenos:

Nessa classe destacamos a insulina, hormônio do crescimento e glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que atuam como mensageiros regulatórios no controle metabólico e endocrinológico.

1.2. Peptídeos bioativos nutricionais:

Moléculas derivadas de proteínas alimentares após digestão ou hidrólise, com efeitos antioxidantes, anti-hipertensivos, imunomoduladores e metabólicos.

1.3. Peptídeos sinalizadores neuromoduladores:

Como exemplo de tais moléculas, podemos citar  neuropeptídeo Y, envolvidos na regulação do apetite, comportamento e resposta ao estresse.

1.4.Peptídeos cardiovasculares:

Aqui citamos os  peptídeos natriuréticos que regulam a pressão arterial e equilíbrio hidrossalino.

1.5. Peptídeos com atividade antimicrobiana ou imunológica:

Tais moléculas participam da defesa contra microrganismos e modulam respostas imunes.

2- Mecanismos de Ação no Organismo Humano

2.1. Modulação Endócrina e Metabólica

Peptídeos atuam frequentemente como hormônios ou mensageiros que se ligam a receptores específicos de membrana celular.

Essa ligação desencadeia cascatas de sinalização intracelular que regulam metabolismo, crescimento celular e homeostase.

• GLP-1 (Glucagon-like Peptide-1): Produzido por células enteroendócrinas após a ingestão de nutrientes, este peptídeo estimula a secreção de insulina de maneira dependente de glicose e suprime a secreção de glucagon, contribuindo para o controle glicêmico pós-prandial.

• Insulina: Clássico hormônio peptídio pancreático que facilita a captação de glicose pelos tecidos periféricos, sendo essencial no metabolismo dos carboidratos.

• Hormônio do Crescimento (GH): Estimula síntese protéica em diversos tecidos e influencia o metabolismo de lipídios e carboidratos.

Esses peptídeos, por agirem sobre receptores específicos e caminhos metabólicos, tornam-se alvos valiosos tanto para terapias farmacológicas quanto como modelos para análogos terapêuticos (e.g., miméticos de incretinas).

2.2. Função Imunológica e Anti-inflamatória

Peptídeos bioativos derivados da hidrólise de proteínas alimentares podem exercer atividades anti-inflamatórias, antioxidantes e moduladoras do sistema imune.

Alguns exemplos incluem péptidos com ação sobre a inibição da enzima conversora de angiotensina e funções antitrombóticas.

2.3. Regulação Cardiovascular e Homeostase Hidrossalina

Peptídeos liberados pelo coração, como os peptídeos natriuréticos, promovem vasodilatação, natriurese e redução da pressão arterial, mecanismos esses de grande relevância na fisiologia do exercício e no manejo clínico de disfunções cardiovasculares.

2.4. Neuromodulação e Sinalização Central

Neuropeptídeos como o Neuropeptídeo Y influenciam o apetite, o balanço energético e funções fisiológicas como a resposta ao estresse.

Esses mecanismos são particularmente importantes na adaptação neuroendócrina ao treinamento físico intenso.

2.5. Atividade Estrutural e de Reparação Tecidual

Alguns peptídeos, como fragmentos de colágeno, podem atuar em processos de remodelação tecidual, melhorando a integridade de tendões e matriz extracelular, especialmente quando associados a estímulos mecânicos do exercício e durante a recuperação de lesões musculoesqueléticas.

3- Implicações no Esporte e na Medicina do Exercício

Na ciência do esporte, peptídeos bioativos têm sido associados a potenciais melhorias da composição corporal, aumento da síntese proteica muscular, redução do dano muscular pós-exercício e adaptações favoráveis nos tecidos conjuntivos quando combinados com treinamento resistido.

Importante destacar que, embora alguns peptídeos tenham aplicações promissoras, muitos agentes peptídicos utilizados empiricamente em contextos de performance atlética (e.g., injeções auto-administradas de peptídeos experimentais) carecem de evidência clínica robusta e não possuem regulamentação formal para uso humano, sendo associados a riscos de segurança e legalidade.

4- Principais tipos de moléculas de Peptídeos e sua aplicabilidade.

• SLU-PP-332 – Agonista de receptores estrogênicos relacionados ao metabolismo energético e mimetizador do exercício (estudo experimental). Classificado como pequena molécula em pesquisa, não aprovado clinicamente.

• MOTS-c – Peptídeo derivado do DNA mitocondrial envolvido na regulação do metabolismo da glicose e homeostase energética; considerado “exercício mimético”.

• BPC-157 (Body Protection Compound-157) – Peptídeo derivado do suco gástrico com potencial reparador de tecidos, angiogênese e proteção no contexto de lesões (uso experimental; proibido pela WADA).

• AOD9604 – Fragmento peptídico do hormônio do crescimento com propriedades lipolíticas investigadas; sem efeito clínico consistente comprovado.

• CJC-1295 – Análogo de Hormônio Liberador de Hormônio do Crescimento (GHRH) usado em pesquisa para estimular liberação de GH.

• Ipamorelin – Secretagogo de GH que atua seletivamente nos receptores de grelina para estimular GH com menor impacto em cortisol/prolactina (pesquisa experimental).

• MK-677 (Ibutamoren) – Agonista oral do receptor de grelina que estimula liberação de GH; frequentemente listado em bancos de dados de peptídeos.

• TB-500 (Thymosin Beta-4) – Fragmento sintético relacionado à Thymosin β-4, estudado por possíveis efeitos em reparo de tecidos e angiogênese.

• GHK-Cu (Copper Peptide) – Peptídeo tripeptídico com potencial reparador, modulador de expressão gênica e usado em contextos de regeneração tecidual.

• Semax – Análogo sintético de ACTH fragmentado usado em pesquisa para neuroproteção e melhora cognitiva.

• PT-141 (Bremelanotide) – Agonista de receptores melanocortínicos com uso clínico aprovado para disfunção sexual (NB: aprovado, mas estruturalmente peptídico).

• Tesamorelin – Análogo de GHRH utilizado para redução de gordura visceral em contextos clínicos específicos.

• Sermorelin – Análogo de GHRH 1-29 usado em pesquisa para estimular liberação de GH.

• SS-31 (Elamipretide) – Peptídeo direcionado à mitocôndria com potencial antioxidante e suporte mitocondrial em pesquisas.

• Thymosin Alpha-1 – Peptídeo relacionado à modulação imune em contextos de suporte imuno-inflamatório (pesquisa clínica).

• KPV – Tripeptídeo com função anti-inflamatória e potencial regulação imune em estudos experimentais.

5- Considerações Finais

A era dos peptídeos nas ciências médicas e esportivas é caracterizada pelo entendimento aprofundado desses biomoléculas como mediadores fisiológicos essenciais e alvos terapêuticos.

Desde regulação metabólica e endócrina até funções imunológicas e estruturais, os peptídeos representam um campo interdisciplinar que integra bioquímica, fisiologia, medicina clínica e performance esportiva.

O contínuo avanço dos conhecimentos sobre suas fontes, mecanismos de ação e aplicações práticas promete expandir ainda mais seu uso baseado em evidências na medicina moderna e na otimização da saúde e performance humana.

6- Referências Bibliográficas

• Organização estrutural e funções gerais de peptídeos: Brasil Escola. Peptídeos: o que são, para que servem, tipos - Brasil Escola

• Desenvolvimento e aplicações de peptídeos terapêuticos (revisão). Therapeutic peptides: current applications and future directions (PMC)

• GLP-1 e ação fisiológica. Peptídeo semelhante a glucagon 1 - Wikipedia

• Papel dos peptídeos bioativos na nutrição e saúde. The Role of Peptides in Nutrition: Insights into Metabolic, Musculoskeletal, and Behavioral Health (MDPI)

• Revisão sobre peptídeos bioativos e esportes. Potential Relevance of Bioactive Peptides in Sports Nutrition (PubMed)

• Peptídeos natriuréticos e fisiologia cardiovascular. Artigo - Peptídeos Natriuréticos - Revista SuplementAção

• Advertência sobre peptídeos injetáveis sem evidência. Some celebrities swear by peptides, but doctors warn of serious risks - Washington Post

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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