PALAVRA DO ESPECIALISTA

Metanol: o perigo oculto nas bebidas alcoólicas e sua bioquímica fatal ao organismo humano

A adulteração de bebidas alcoólicas com metanol ou álcool metílico, como também é conhecido, se mostra como uma das ameaças menos visíveis, mas extremamente perigosas, à saúde pública

Metanol: o perigo oculto nas bebidas alcoólicas e sua bioquímica fatal ao organismo humano Crédito: Banco de imagens

Diferente do Etanol (o álcool presente nos destilados legais), o Metanol é altamente tóxico e pode causar danos irreversíveis ou morte mesmo em quantidades relativamente pequenas. Nesse artigo, o Dr Edson Rosa explica o que está acontecendo no Brasil e no mundo, como o Metanol atua no organismo, seus mecanismos bioquímicos e os casos recente, bem como as medidas de prevenção.

Entrevista com o Dr. Edson Rosa:

1 - O que é metanol e por que é tóxico ?

Primeiramente é importante destacar que o Metanol é um álcool simples, inflamável, incolor, usado em solventes, combustíveis, produção de plásticos, tintas.

Ele NÃO se destina em hipótese alguma ao consumo humano.

2 - Dr Edson, como o Metanol pode causar danos sérios ao organismo humano ?

No organismo humano, o Metanol é metabolizado num composto chamado  Formaldeído e, sobretudo, em Acido Fórmico, que causa um quadro de Acidose Metabólica, ocasionando diversas lesões em órgãos sensíveis, incluindo nervos ópticos, rins, cérebro, dentre outros.

3 - Esses danos ao organismo humano são observados em qual dosagem ingerida ?

Podemos dizer que ingestões de 20 a 60 mL de Metanol puro já podem causar danos ao nervo óptico, cegueira e morte.

Mas mesmo doses menores, dependendo da concentração, da sensibilidade do paciente e do tempo até o tratamento, apresentam risco sério.

4 - Quais são os principais sintomas da intoxicação por Metanol ??

Os sintomas de contaminação por Metanol, costumam aparecer entre 6 a 24 horas após a ingestão, podendo variar conforme quantidade, concentração, saúde da vítima e rapidez no atendimento.

Dentre os sinais principais, podemos mensurar:

Sintomas neurológicos (tontura, sonolência, confusão mental, dores abdominais, náuseas, vômitos, visão turva ou perda de visão (em alguns casos, cegueira irreversível),fotofobia (sensibilidade à luz), dor nos olhos, taquicardia (aumento da frequência cardíaca), hipotensão (queda na pressão arterial).

Em casos mais graves, podemos observar quadros de convulsões, insuficiência renal, comprometimento neurológico, choque, falência múltipla de órgãos.

O Metanol é destruído pelo organismo lentamente; seus metabólitos (formaldeído, ácido fórmico) são os que realmente causam o dano, podendo cursar a óbito.

A cegueira pode ser irreversível, até mesmo após tratamento, muitos casos deixam sequelas visuais ou neurológicas.

Quanto mais demorado o atendimento médico, pior poderá ser o prognóstico, pois o tratamento na maior parte das vezes, requer suporte hospitalar, administração de Etanol (ou Fomepizol) e hemodiálise em alguns casos.

Quais foram os casos recentes no Brasil de contaminação de bebidas alcoólicas por Metanol

No estado de São Paulo, foram confirmadas até agora,  duas mortes por intoxicação por Metanol ligada ao consumo de bebida alcoólica adulterada, uma delas na capital e outra em São Bernardo do Campo.

Até o momento, foram confirmados sete casos de intoxicação no estado, com outros 15 suspeitos em investigação. Em alerta enviado à população, a Vigilância Sanitária de São Paulo registrou dez casos de contaminação de bebidas alcoólicas, com três mortes confirmadas, em um curto espaço de tempo.

5 - Quais são os métodos de prevenção que as pessoas precisam ter para não sofrerem o risco de serem contaminadas por Metanol ?

É muito importante os consumidores, comprar apenas bebidas com selo fiscal, lacre de segurança, rótulo legível e autenticado, evitando a aquisição de  bebidas de vendedores ambulantes ou em locais sem registro ou procedência confiável.

A população deve ficar  atenta aos sintomas após consumir bebida alcoólica, tais como: visão turva, dor abdominal, vômitos, distúrbios visuais.

Se esses sintomas ocorrerem, devem procurar atendimento médico imediato.

Para as instituições, deve ser Intensificada a fiscalização de distribuição de bebidas alcoólicas, inclusive vendedores ambulantes e revendedores informais, rastreando as cadeias de produção e distribuição.

Devem ser realizadas campanhas de informação pública sobre os riscos do consumo de bebidas alcoólicas de origem duvidosa.

A contaminação de bebidas alcoólicas com Metanol é um problema de saúde pública grave, tanto no Brasil como em outros países.

Os casos recentes em São Paulo demonstram como situações aparentemente isoladas podem se multiplicar com mortes e sequelas graves.

A combinação de má-fé, busca por lucro e ausência de fiscalização eficaz cria um cenário em que o Metanol entra como um perigo oculto, invisível até que cause dano irreparável.

A sociedade civil, os consumidores e o poder público precisam agir de forma integrada: desde regulamentação, fiscalização, controle, até educação e conscientização, pois só assim será possível reduzir o risco e proteger vidas.

6 - Qual é o tratamento realizado em pacientes internados por intoxicação por Metanol para reverter o quadro ?

Podemos dizer que o medicamento de referência para reverter intoxicação por Metanol é chamado de Fomepizol.

Ele atua bloqueando a enzima álcool desidrogenase, que é responsável por metabolizar o metanol em substâncias altamente tóxicas como o formaldeído e o ácido fórmico, sendo esses os verdadeiros vilões que causam danos ao Sistema  Nervoso Central (SNC), rins e o nervo óptico podendo comprometer a visão.

Dessa forma, podemos dizer que o tratamento de escolha para reverter a intoxicação por Metanol é o Fomepizol, sendo considerado o antídoto mais eficaz e seguro.

Ele é administrado por via intravenosa e tem poucos efeitos colaterais.

No entanto, na falta desse composto, podemos lançar mão do próprio Etanol (Álcool) usado como alternativa quando o Fomepizol não está disponível.

Ele compete com o Metanol pela mesma enzima, retardando sua metabolização tóxica, mas exige monitoramento rigoroso por risco de intoxicação alcoólica.

Importante destacar é que o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível, idealmente nas primeiras horas após a ingestão de Metanol. Em casos graves, pode ser necessário suporte intensivo, como hemodiálise, para remover o metanol e seus metabólitos do organismo.

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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