PALAVRA DO ESPECIALISTA

Artigo - Obstrução de vias aéreas por corpo estranho (OVACE): manobra de heimlich e manejo médico emergencial em ambulatórios, consultórios e academia

A obstrução de vias aéreas por corpo estranho (OVACE) constitui uma emergência potencialmente fatal, caracterizada pela interrupção parcial ou completa do fluxo aéreo decorrente da presença de alimento, objeto ou outro material na via respiratória

Artigo - Obstrução de vias aéreas por corpo estranho (OVACE): manobra de heimlich e manejo médico emergencial em ambulatórios, consultórios e academia Crédito: Divulgação

Quando grave e não rapidamente revertida, pode produzir hipóxia progressiva, perda da consciência, parada cardiorrespiratória e morte.

Embora frequentemente associada ao ambiente doméstico e a estabelecimentos de alimentação, a OVACE também pode ocorrer em consultórios, ambulatórios e academias. Nesses locais, o reconhecimento precoce da emergência e a presença de profissionais capacitados para iniciar imediatamente as manobras de desobstrução podem ser determinantes para o prognóstico.

No ambiente esportivo, algumas circunstâncias merecem atenção, pois a ingestão rápida de alimentos antes ou depois do treinamento, o consumo alimentar durante períodos de recuperação e a ingestão de cápsulas ou comprimidos podem estar associados a episódios de engasgo. As academias também apresentam circulação diária de grande número de pessoas, reforçando a importância da capacitação das equipes em suporte básico de vida e atendimento inicial às emergências.

1- Fisiopatologia da obstrução das vias aéreas e hipóxia

A manutenção da permeabilidade das vias aéreas constitui um dos princípios fundamentais da abordagem ao paciente crítico. Uma obstrução mecânica grave impede a ventilação pulmonar adequada e, consequentemente, compromete progressivamente a oxigenação.

A redução da oferta de oxigênio aos tecidos afeta particularmente órgãos de elevado metabolismo, sobretudo cérebro e coração.

O quadro pode evoluir de ansiedade e agitação para alteração do estado mental, perda da consciência e, nos casos mais graves, parada cardiorrespiratória.

Por essa razão, a OVACE grave deve ser compreendida como uma emergência tempo-dependente.

É fundamental diferenciar a obstrução leve da obstrução grave.

Na obstrução leve, o indivíduo geralmente mantém passagem de ar, consegue falar ou produzir sons e apresenta tosse eficaz. Nessa situação, a tosse espontânea deve ser estimulada e a vítima cuidadosamente observada.

Na obstrução grave, podem ocorrer tosse fraca ou ausente, incapacidade de falar, dificuldade ou incapacidade de respirar, alteração progressiva da coloração da pele e mucosas, redução do nível de consciência e, finalmente, apneia e parada cardiorrespiratória.

2- Manobra de Heimlich e mecanismo fisiológico

A tradicional manobra de Heimlich corresponde às compressões abdominais utilizadas para auxiliar a expulsão de um corpo estranho das vias aéreas.

O socorrista posiciona-se atrás da vítima e realiza compressões rápidas sobre a região abdominal superior, direcionadas para dentro e para cima.

O princípio fisiológico consiste na elevação abrupta da pressão intra-abdominal e intratorácica, produzindo fluxo expiratório capaz de favorecer o deslocamento e a expulsão do objeto responsável pela obstrução.

Entretanto, as recomendações contemporâneas para OVACE grave não se limitam à realização isolada da manobra de Heimlich. Ela deve ser compreendida como um componente de um algoritmo mais amplo de atendimento emergencial.

3- Atualização das recomendações para OVACE

As Diretrizes de 2025 da American Heart Association (AHA) para ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência recomendam, para adultos conscientes com OVACE grave, a realização de ciclos constituídos por:

5 golpes interescapulares, seguidos de 5 compressões abdominais.

Os ciclos devem ser repetidos até que o corpo estranho seja expelido ou até que a vítima se torne não responsiva.

Essa orientação é particularmente relevante porque, durante décadas, o atendimento ao engasgo no adulto tornou-se popularmente associado quase exclusivamente à chamada manobra de Heimlich.

A abordagem atual deve ser compreendida de forma mais abrangente, associando reconhecimento clínico, golpes interescapulares, compressões abdominais e rápida progressão para suporte básico de vida quando necessária.

Diante de sinais de obstrução grave, o serviço de emergência deve ser acionado precocemente.

4- Perda da consciência e progressão para parada cardiorrespiratória

A perda da responsividade representa uma mudança crítica na abordagem.

Quando um adulto com OVACE grave se torna não responsivo, deve-se iniciar ressuscitação cardiopulmonar (RCP), começando pelas compressões torácicas, além de garantir o acionamento do serviço de emergência.

Durante os ciclos de RCP, ao abrir a via aérea para realizar as ventilações, a cavidade oral deve ser inspecionada. Caso um corpo estranho seja claramente visualizado e esteja acessível, poderá ser cuidadosamente removido.

Não se recomenda realizar varredura digital às cegas. A introdução dos dedos sem visualização do corpo estranho pode aprofundar sua posição e agravar a obstrução.

Na presença de parada cardiorrespiratória, deve-se prosseguir com RCP de alta qualidade e utilizar o desfibrilador externo automático (DEA) tão logo esteja disponível.

5- Situações especiais e adaptações das manobras

As compressões abdominais não são adequadas ou tecnicamente possíveis em todas as situações.

Nas fases avançadas da gestação, assim como quando não é possível envolver adequadamente o abdome da vítima, as recomendações atuais orientam ciclos de 5 golpes interescapulares seguidos de 5 compressões torácicas, substituindo as compressões abdominais.

A técnica deve, portanto, ser adaptada às características anatômicas e clínicas da vítima, preservando o objetivo fundamental de restabelecer rapidamente a permeabilidade das vias aéreas.

6- Manejo emergencial em consultórios e ambulatórios

Nos ambientes assistenciais, a OVACE deve ser inserida dentro de uma estratégia mais ampla de preparação para emergências médicas.

Além do reconhecimento imediato da obstrução e da execução adequada das manobras de suporte básico de vida, a equipe deve conhecer previamente o fluxo para acionamento do serviço móvel de emergência e a localização dos equipamentos disponíveis no estabelecimento.

Nos casos em que o corpo estranho não é eliminado pelas medidas iniciais, o atendimento avançado poderá exigir manejo instrumental da via aérea e outras intervenções realizadas por profissionais devidamente capacitados.

A simples presença de equipamentos não garante segurança assistencial. Capacitação periódica, protocolos institucionais, divisão de responsabilidades e treinamento por meio de simulações constituem elementos fundamentais para uma resposta organizada.

7- OVACE no ambiente das academias

As academias representam ambientes com grande circulação de indivíduos e nos quais diferentes intercorrências clínicas podem ocorrer.

Embora a parada cardiorrespiratória seja uma das emergências mais reconhecidas nesses locais, episódios de síncope, hipoglicemia, traumatismos, crises convulsivas e obstrução das vias aéreas também podem demandar intervenção imediata.

Os professores, treinadores e demais profissionais capacitados em primeiros socorros devem reconhecer rapidamente a diferença entre tosse eficaz e sinais de obstrução grave.

Na obstrução leve, a tosse deve ser estimulada, mantendo-se vigilância sobre a vítima.

Diante de OVACE grave em adulto consciente, devem ser iniciados os ciclos recomendados de golpes interescapulares e compressões abdominais, concomitantemente à organização do acionamento do serviço de emergência.

Caso ocorra perda da responsividade, deve-se iniciar o protocolo de RCP.

No Brasil, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) funciona 24 horas por dia e pode ser acionado gratuitamente pelo número 192.

8- Avaliação clínica após a desobstrução

A expulsão do corpo estranho e a recuperação da ventilação constituem o objetivo imediato do atendimento, mas não necessariamente representam o encerramento da assistência.

Dependendo da gravidade do episódio, podem existir fragmentos residuais, aspiração de material para segmentos inferiores da árvore respiratória ou lesões produzidas tanto pelo corpo estranho quanto pelas próprias manobras utilizadas para sua expulsão.

As compressões abdominais são potencialmente salvadoras, porém podem produzir complicações traumáticas. Dessa forma, sintomas respiratórios persistentes, dor torácica ou abdominal significativa, dificuldade para deglutir, alteração do estado geral ou qualquer intercorrência após o episódio justificam avaliação médica.

9- Prevenção, capacitação e segurança

A capacidade de resposta a uma emergência não depende exclusivamente da disponibilidade de equipamentos. Uma equipe incapaz de reconhecer rapidamente uma OVACE grave ou uma parada cardiorrespiratória pode perder minutos determinantes para o prognóstico.

Os consultórios, ambulatórios, clínicas e academias devem estabelecer uma cultura de preparação para emergências compatível com suas atividades e com o perfil das pessoas atendidas.

Treinamentos periódicos em suporte básico de vida, conhecimento do fluxo para acionamento do serviço de emergência, acesso rápido ao DEA quando disponível e simulações de situações críticas contribuem para uma resposta mais rápida, coordenada e segura.

No contexto da OVACE, procedimentos relativamente simples, quando corretamente indicados e executados no momento adequado, podem interromper a progressão de uma obstrução respiratória potencialmente fatal.

10- Considerações finais

A obstrução de vias aéreas por corpo estranho representa uma emergência na qual segundos e minutos possuem importância clínica significativa.

Reconhecer a diferença entre obstrução leve e grave constitui o primeiro passo. Saber quando estimular a tosse, iniciar golpes interescapulares e compressões abdominais, utilizar compressões torácicas em situações específicas e iniciar a ressuscitação cardiopulmonar diante da perda da responsividade transforma conhecimento teórico em capacidade efetiva de intervenção.

A tradicional manobra de Heimlich permanece relevante no manejo da OVACE, porém deve ser compreendida dentro dos algoritmos contemporâneos de suporte básico de vida e não como uma intervenção isolada.

Em academias, consultórios e ambulatórios, a capacitação para reconhecer e intervir diante dessas situações constitui uma importante estratégia de segurança. Em uma obstrução grave das vias aéreas, reconhecer rapidamente o quadro, iniciar corretamente as manobras e acionar o atendimento de emergência pode representar a diferença entre a recuperação completa, uma lesão neurológica hipóxica grave e um desfecho fatal.

Referências Bibliográficas

AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Adult Basic Life Support. 2025.

AMERICAN HEART ASSOCIATION. Adult Foreign-Body Airway Obstruction Algorithm. 2025.

AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 Guidelines for CPR and ECC – Executive Summary. 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU 192.

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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