A dificuldade para manter a concentração por períodos mais longos está se tornando um problema muito frequente. Estudar sem pegar o celular, terminar uma tarefa sem alternar entre aplicativos ou simplesmente assistir a uma aula inteira pode parecer cada vez mais difícil em uma rotina cercada por notificações e estímulos digitais.
Apesar de problemas de atenção possam ter diferentes causas, a forma como as redes sociais são utilizadas pode contribuir para esse cenário. Vídeos curtos, atualizações constantes e a possibilidade de mudar de conteúdo em poucos segundos estimulam um padrão de atenção fragmentada.
Para Marcelo Thieme, mentor estratégico, membro do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, e em formação de biohacking e neurociência aplicada, esse hábito merece atenção.
“As redes sociais estimulam a atenção dispersa e a mudança de foco rápida. Quando esse padrão se torna constante, ele pode contribuir para reduzir a capacidade de manter a atenção de forma sustentada”, destaca.
O hábito de trocar de estímulo
Nas redes sociais, praticamente não existe um ponto final natural para o consumo de conteúdo. Ao terminar um vídeo, outro aparece imediatamente, depois de uma publicação, surgem novas recomendações. Uma mensagem pode interromper uma tarefa e levar o usuário a navegar durante vários minutos sem perceber quanto tempo passou. Essa dinâmica favorece a mudança rápida de foco.
“O cérebro passa a lidar constantemente com novos estímulos e novas informações. O problema pode surgir quando essa necessidade de mudança começa a acompanhar a pessoa também fora das redes sociais”, explica Marcelo Thieme.
Concentrar-se não significa apenas conseguir prestar atenção em algo durante alguns segundos. Muitas tarefas importantes exigem a capacidade de permanecer mentalmente envolvido, mesmo quando a atividade não oferece recompensas imediatas. Estudar para uma prova, escrever um relatório, aprender uma nova habilidade ou resolver um problema complexo exige tempo e continuidade.
“Quando qualquer momento de tédio é imediatamente preenchido por uma nova informação no celular, a pessoa pode reduzir sua tolerância ao esforço mental. Mas desenvolver foco também significa aprender a permanecer em uma atividade”, afirma.
O problema das interrupções
A pessoa interrompe o trabalho para responder uma mensagem, aproveita para verificar uma rede social, encontra outro conteúdo interessante e, alguns minutos depois, tenta retomar a atividade original. Essa alternância pode prejudicar a sensação de continuidade.
“É importante perceber que nem toda pausa representa descanso mental. Trocar uma tarefa complexa por uma sequência intensa de novos estímulos pode manter o cérebro em constante atividade, apenas mudando o tipo de demanda”, ressalta Marcelo Thieme.
As redes sociais também podem ser utilizadas para comunicação, trabalho, informação e entretenimento. A questão está relacionada à frequência, ao tempo de uso e, principalmente, à capacidade de controlar o momento em que elas são acessadas.
Reduzir notificações desnecessárias, estabelecer horários para navegar nas plataformas e evitar o celular durante atividades que exigem concentração são algumas medidas que podem ajudar a reduzir interrupções.
“Não se trata de demonizar a tecnologia. O mais importante é que a pessoa mantenha o controle sobre a própria atenção e consiga utilizar as redes de maneira consciente”, pontua.
Recuperar a capacidade de concentração
Em uma realidade cada vez mais acelerada, proteger a atenção pode ser uma necessidade para a vida profissional, acadêmica e pessoal. O foco permite aprofundar conhecimentos, concluir tarefas e dedicar energia mental a atividades que exigem raciocínio e planejamento.
“A atenção é um recurso valioso. Quanto mais a pessoa cria hábitos que reduzem interrupções e exercita períodos de concentração, maiores são as possibilidades de fortalecer novamente sua capacidade de foco”, conclui Marcelo Thieme.

Comentários