ALIMENTAÇÃO & NUTRIÇÃO

Setembro Laranja: como a alimentação da gestante pode prevenir a obesidade infantil

O Setembro Laranja é uma campanha criada pela Sociedade de Pediatria de São Paulo para chamar atenção ao crescimento da obesidade entre crianças e adolescentes no Brasil, e um dos pontos menos discutidos dentro dessa conversa é o período que antecede o nascimento

Setembro Laranja: como a alimentação da gestante pode prevenir a obesidade infantil Crédito: Divulgação

Muito antes da primeira papinha ou da primeira mamada, o organismo do bebê já está sendo moldado pelo ambiente nutricional que encontra dentro do útero.

Pensando em esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto, Amanda Figueiredo, nutricionista da Cult Clínica, relaciona como a alimentação da mãe ainda na gestação pode evitar a obesidade na infância.

“A forma como a gestante se alimenta durante os nove meses de gravidez interfere na programação metabólica do feto, influenciando o risco de obesidade, resistência à insulina e outras condições metabólicas ao longo de toda a infância e mesmo na vida adulta”, explica Amanda Figueiredo, nutricionista clínica pela USP, com pós-graduada em Saúde da Mulher e Reprodução Humana pela PUC e extensão em Nutrition and Lifestyle in Pregnancy pela University of Munich (Alemanha).

Esse conceito, conhecido na literatura científica como programação fetal ou DOHaD (Developmental Origins of Health and Disease), mostra que os primeiros mil dias de vida, contados a partir da concepção, formam uma janela de oportunidade única para prevenir doenças crônicas antes mesmo que elas tenham chance de se instalar. E é aí que a nutrição na gestação assume um papel que vai muito além do peso da mãe na balança.

O equilíbrio de nutrientes e o desenvolvimento fetal

Durante a gravidez, cada nutriente que chega ao feto através da placenta carrega uma informação metabólica. “Excesso de açúcar no sangue materno, por exemplo, atravessa a placenta e estimula o pâncreas fetal a produzir mais insulina, o que favorece o acúmulo de tecido adiposo ainda dentro do útero”, esclarece a nutricionista Amanda Figueiredo. “Bebês que nascem grandes para a idade gestacional, fruto de um controle glicêmico inadequado na gravidez, apresentam risco aumentado de obesidade já na primeira infância”, complementa.

Por outro lado, a especialista conta que restrição calórica extrema ou a deficiência de nutrientes essenciais também trazem consequências, ainda que por um caminho diferente. Fetos que enfrentam escassez nutricional no útero desenvolvem um metabolismo economizador, adaptado para armazenar energia com mais eficiência. Quando esse bebê nasce em um ambiente de fartura alimentar, como costuma ser a realidade urbana atual, esse metabolismo poupador se transforma em um fator de risco para ganho de peso excessivo.

“O equilíbrio, portanto, não está apenas em comer bem, mas em comer de forma adequada às necessidades específicas de cada trimestre, com atenção à qualidade dos carboidratos, à presença de gorduras boas como o ômega 3, à quantidade correta de proteínas e ao aporte de micronutrientes como ferro, cálcio, vitamina D e ácido fólico”, alerta a nutricionista. “Cada um desses elementos participa da construção dos órgãos que vão regular o apetite, o metabolismo energético e o armazenamento de gordura do bebê pelo resto da vida”, pontua.

A importância do pré-natal nutricional

Um acompanhamento nutricional bem conduzido permite ajustar a dieta a cada fase da gravidez, corrigindo deficiências antes que se agravem e adequando as porções e a composição das refeições ao ritmo de ganho de peso recomendado para o perfil daquela mulher. “Também é no pré-natal nutricional que se monitoram exames que têm relação direta com o metabolismo fetal, como a glicemia e o perfil lipídico, permitindo intervenções precoces quando os números começam a fugir do esperado”, esclarece a nutricionista.

Além do aspecto metabólico, esse acompanhamento tem um valor educativo importante. “A gestante que entende por que determinado alimento é recomendado, ou por que certo padrão alimentar deve ser evitado naquele momento, tende a manter hábitos mais saudáveis depois do parto, o que se reflete também nas escolhas alimentares feitas para a criança nos anos seguintes”, complementa. 

Cuidados que a gestante deve seguir na dieta

Entre os cuidados mais relevantes está o controle da qualidade dos carboidratos consumidos ao longo do dia. “Prefira fontes integrais e associadas a fibras e proteínas, o que ajuda a evitar picos de glicose que sobrecarregam o metabolismo fetal. Refrigerantes, doces concentrados e produtos ultraprocessados devem ser reduzidos ao mínimo possível, não como uma restrição punitiva, mas como uma forma de proteger o ambiente metabólico em que o bebê está se formando”, indica.

A ingestão adequada de proteínas de boa qualidade, distribuídas ao longo das refeições, sustenta o crescimento dos tecidos fetais e contribui para a saciedade da gestante, reduzindo a tendência a beliscar alimentos pouco nutritivos entre as refeições principais. As gorduras também merecem atenção especial, com destaque para o ômega 3, presente em peixes de água fria e em suplementação quando indicado, por seu papel comprovado no desenvolvimento neurológico e na modulação da inflamação.

De acordo com a nutricionista o ganho de peso gestacional deve ser acompanhado de perto, respeitando as faixas recomendadas de acordo com o índice de massa corporal pré-gestacional da mulher. “Ganhos muito acima ou muito abaixo do esperado estão associados a desfechos metabólicos desfavoráveis tanto para a mãe quanto para o bebê”, orienta. 

Por fim, vale lembrar que hidratação adequada, sono de qualidade e manejo do estresse também compõem esse cuidado nutricional de forma indireta, já que hormônios ligados ao estresse crônico interferem no metabolismo da glicose e podem comprometer os resultados de uma dieta bem planejada.

Com orientação profissional adequada, é possível construir uma rotina alimentar prazerosa, variada e alinhada às necessidades reais da gestação, sem o peso da culpa ou da rigidez excessiva que tantas vezes afasta as mulheres do acompanhamento nutricional. “O que está em jogo não é apenas o número na balança, mas a saúde metabólica de uma criança que ainda vai nascer, crescer e formar seus próprios hábitos alimentares a partir do exemplo e do ambiente que a gestante constrói agora”, finaliza.

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