Treinar e depois permanecer horas sentada trabalhando, passar o dia com roupas excessivamente apertadas, esquecer de beber água ou ignorar inchaços recorrentes nas pernas são exemplos que merecem atenção.
Para o cirurgião vascular e endovascular Dr. Gabriel Novaes, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), cuidar da circulação envolve tanto a atividade física programada quanto os pequenos movimentos realizados ao longo do dia. “Quando movimentamos as pernas, especialmente a musculatura da panturrilha, ajudamos o sangue a vencer a gravidade e retornar ao coração. Por isso, atividade física regular é uma grande aliada da circulação. Mas o comportamento durante o restante do dia também importa”, explica o médico.
1. Sua panturrilha é uma espécie de ‘bomba’ da circulação
Quando caminhamos ou fazemos exercícios que movimentam tornozelos e panturrilhas, a contração muscular auxilia o retorno do sangue das pernas em direção ao coração.
É por isso que caminhar, correr, pedalar e realizar exercícios de fortalecimento dos membros inferiores podem favorecer a circulação.
“Não significa que exista um exercício milagroso para evitar varizes. Há fatores genéticos, hormonais, idade e outras condições envolvidas. Mas manter as pernas ativas ajuda o funcionamento da circulação e traz benefícios importantes para a saúde como um todo”, afirma Novaes.
Uma dica simples para quem trabalha sentada é levantar-se regularmente e movimentar os tornozelos. Até movimentos de flexão e extensão dos pés podem ativar a musculatura da panturrilha.
2. Treinar todos os dias não compensa passar o restante do tempo imóvel
É possível ser uma pessoa fisicamente ativa e, ao mesmo tempo, permanecer tempo demais sentada.
Quem treina pela manhã e depois passa horas diante do computador deve prestar atenção nisso. Longos períodos de imobilidade reduzem a ação da musculatura das pernas responsável por auxiliar o retorno venoso.
“A academia é excelente, mas não deve ser a única hora do dia em que o corpo se movimenta. Pequenas pausas para caminhar e movimentar as pernas também são importantes”, explica o cirurgião vascular.
Vale a regra prática: o treino conta, mas o movimento fora do treino também conta.
3. Terminou o treino? Não fique horas com a roupa apertada e molhada
Leggings e roupas de compressão fazem parte do universo fitness, mas peças excessivamente apertadas podem provocar desconforto e marcas na pele. Além disso, permanecer durante muitas horas com a mesma roupa suada não é uma boa estratégia para a saúde da pele.
Segundo Novaes, a roupa esportiva precisa permitir movimento e conforto. “Se a peça provoca dor, dormência, formigamento ou deixa marcas muito profundas, é importante observar se o tamanho e o modelo estão adequados.”
E há uma diferença importante: legging apertada não é meia de compressão medicinal. Meias elásticas possuem compressão graduada e indicações específicas e, em algumas situações, devem ser recomendadas por um profissional de saúde.
4. Hidratação também entra na conversa sobre circulação
Quem pratica exercícios costuma associar hidratação apenas à performance, à reposição do suor ou à prevenção da desidratação. Mas manter uma hidratação adequada também é importante para o funcionamento geral do organismo e do sistema circulatório.
Em treinos longos, temperaturas elevadas ou situações de grande perda de líquidos pelo suor, a atenção precisa ser ainda maior.
“Não existe uma quantidade universal de água que sirva para todas as pessoas. Peso, intensidade do exercício, temperatura, duração do treino e condições de saúde interferem nessa necessidade”, explica o especialista.
5. Pernas para cima depois do treino: funciona?
Deitar e elevar as pernas virou uma espécie de ritual nas redes sociais. E existe uma explicação fisiológica para a sensação de alívio.
Elevar os membros pode facilitar temporariamente o retorno venoso e ajudar algumas pessoas que apresentam sensação de peso ou edema ao final do dia.
Mas há um alerta: isso não trata a causa de varizes ou de um inchaço persistente.
“Se a pessoa precisa elevar as pernas praticamente todos os dias porque sente peso, dor ou percebe edema frequente, vale investigar a causa em vez de apenas aliviar o sintoma”, orienta Novaes.
6. Musculação causa varizes?
O medo ainda aparece nos consultórios, principalmente entre mulheres que começam a aumentar as cargas nos exercícios de pernas.
De acordo com o especialista, a musculação, quando realizada adequadamente, não deve ser encarada como causa direta de varizes.
A doença venosa é multifatorial e pode estar relacionada principalmente à predisposição genética, idade, fatores hormonais, gestações, obesidade e longos períodos em pé ou sentada.
“O fortalecimento muscular, inclusive das pernas e panturrilhas, pode fazer parte de uma rotina saudável. Quem já possui doença vascular diagnosticada ou apresenta sintomas deve conversar com seu médico sobre as adaptações necessárias”, explica.
7. Inchaço depois do treino nem sempre significa que você ‘pegou pesado’
Depois de um treino intenso, dores musculares podem ser esperadas. O problema é atribuir automaticamente qualquer alteração ao exercício.
Inchaço persistente, principalmente quando aparece apenas em uma perna, associado a dor, aumento de temperatura, vermelhidão ou mudança de coloração não deve ser normalizado.
“Existe uma tendência de achar que toda dor na perna de quem treina é muscular. Quando o sintoma é diferente do habitual, aparece de maneira súbita ou vem acompanhado de edema importante, é necessário procurar avaliação médica”, alerta o cirurgião vascular.
8. O hábito fitness mais simples pode acontecer longe da academia
Para quem quer cuidar da circulação, Novaes destaca que uma das estratégias mais simples é justamente evitar grandes períodos de imobilidade.
Caminhar para buscar água, usar escadas quando possível, levantar durante o expediente, movimentar os pés enquanto trabalha e incluir pequenas caminhadas na rotina parecem atitudes pequenas, mas mantêm a musculatura das pernas ativa.
“Nosso sistema circulatório se beneficia de movimento. Não precisamos pensar apenas em performance ou em quantas calorias foram gastas. Exercício também é uma ferramenta de prevenção e de saúde vascular”, afirma.
Para o especialista, a mensagem para quem já treina é simples: não cuide do corpo somente durante os 60 minutos da academia. A circulação continua trabalhando nas outras 23 horas do dia.

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