PALAVRA DO ESPECIALISTA

Artigo - O uso de análogos de GLP-1 (canetas emagrecedoras) nas preparações de fisiculturismo

Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) modificaram de maneira expressiva a abordagem médica contemporânea da obesidade e das doenças metabólicas. Fármacos como Liraglutida e Semaglutida, além da Tirzepatida, que, tecnicamente, é um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1, apresentam capacidade consistente de promover redução ponderal e de massa adiposa, com repercussões metabólicas importantes

Artigo - O uso de análogos de GLP-1 (canetas emagrecedoras) nas preparações de fisiculturismo Crédito: Divulgação

Nos últimos anos, entretanto, essas substâncias ultrapassaram progressivamente os limites tradicionais da endocrinologia e da medicina da obesidade e chegaram ao universo esportivo, particularmente ao fisiculturismo. 

Atletas passaram a utilizá-las durante fases de redução de gordura corporal, os chamados períodos de cutting, e especialmente em preparações pré-competitivas, nas quais pequenas alterações na composição corporal podem representar diferenças visualmente relevantes no palco.

Surge, portanto, uma questão pertinente para a Medicina Esportiva e para a Fisiologia do Exercício: o emprego de agonistas de GLP-1 na preparação de fisiculturistas representa uma aplicação racional da farmacologia metabólica ou ainda se encontra predominantemente sustentado pelo empirismo?

A resposta exige compreender não apenas a capacidade dessas drogas de promover emagrecimento, mas também suas repercussões sobre massa muscular, ingestão energética, desempenho esportivo, hidratação e composição corporal.

1- GLP-1: muito além de um hormônio relacionado à glicemia

O GLP-1 é um hormônio incretínico produzido predominantemente pelas células L intestinais após a ingestão alimentar. Entre seus efeitos fisiológicos estão o estímulo glicose-dependente da secreção de insulina, a redução da secreção de glucagon em determinadas condições, o retardamento do esvaziamento gástrico e a modulação central dos mecanismos de fome e saciedade.

Os agonistas farmacológicos do receptor de GLP-1 amplificam ou prolongam esses mecanismos, permitindo redução significativa da ingestão energética.

É justamente essa propriedade que tornou essas moléculas atraentes no fisiculturismo.

Durante uma preparação competitiva, o atleta precisa reduzir progressivamente o percentual de gordura corporal enquanto procura preservar o máximo possível de massa muscular. 

Conforme a competição se aproxima, o déficit energético pode tornar-se progressivamente difícil de sustentar devido ao aumento da fome e às adaptações neuroendócrinas produzidas pela própria restrição calórica.

Nesse contexto, o GLP-1 passou a ser interpretado por alguns atletas e preparadores como uma ferramenta farmacológica capaz de melhorar a adesão à dieta.

Contudo, reduzir o peso corporal não é sinônimo de melhorar a composição corporal de um fisiculturista, sendo essa distinção fundamental.

2- O objetivo do fisiculturista não é simplesmente emagrecer

O tratamento convencional da obesidade geralmente utiliza parâmetros como peso corporal, circunferência abdominal, percentual de gordura e melhora de marcadores metabólicos.

No fisiculturismo competitivo, a equação é diferente, pois o objetivo não consiste simplesmente em produzir a maior redução possível do peso corporal. 

Busca-se maximizar a redução da gordura subcutânea preservando simultaneamente:

- massa muscular;

- volume muscular;

- força e capacidade de treinamento;

- conteúdo adequado de glicogênio;

- recuperação muscular;

- qualidade estética;

- desempenho físico.

Um atleta pode, portanto, apresentar redução expressiva na balança e simultaneamente piorar sua condição competitiva caso uma parcela significativa dessa redução esteja relacionada à massa livre de gordura.

Essa questão ganhou relevância à medida que começaram a surgir estudos avaliando não somente o peso, mas a composição corporal durante o tratamento com agonistas de GLP-1.

Uma meta-análise publicada em Metabolism, reunindo 22 ensaios clínicos randomizados e 2.258 participantes, verificou reduções significativas tanto de gordura quanto de massa magra. Aproximadamente 25% da redução total de peso observada correspondeu à massa magra, embora a proporção relativa de massa magra no peso corporal não tenha apresentado deterioração significativa. (PubMed)

Uma meta-análise publicada em 2026 também encontrou redução absoluta de massa magra durante tratamentos em doses utilizadas para obesidade, ao mesmo tempo em que observou melhora da proporção de massa magra em relação ao peso corporal total. Os autores destacaram a importância da associação com estratégias nutricionais e exercício para preservação muscular. (PubMed)

Portanto, a interpretação deve ser cuidadosa: perder massa magra durante um processo de grande emagrecimento não significa necessariamente que o medicamento produza diretamente catabolismo muscular, mas demonstra que a preservação do tecido muscular precisa ser considerada.

3- Massa magra não significa necessariamente músculo

Existe ainda uma importante questão metodológica.

Massa livre de gordura e massa muscular esquelética não são conceitos equivalentes.

Alterações de água corporal, glicogênio e outros compartimentos podem modificar as medidas de massa magra obtidas por determinados métodos de avaliação da composição corporal. 

Isso assume importância ainda maior no fisiculturismo, modalidade na qual manipulações de carboidratos, sódio, água e treinamento podem modificar significativamente esses compartimentos.

Uma revisão recente destacou justamente essa controvérsia: alguns estudos sugerem perda muscular relevante com terapias baseadas em GLP-1, enquanto outros indicam preservação funcional ou até possíveis efeitos favoráveis sobre qualidade muscular, inflamação e deposição de gordura intramuscular. 

Os autores consideram que as evidências humanas disponíveis ainda não permitem uma conclusão definitiva sobre um efeito muscular intrínseco negativo ou positivo desses medicamentos. (ScienceDirect)

Outro conjunto de evidências sugere que a perda ponderal induzida pelos agonistas de GLP-1 ocorre predominantemente às custas de gordura, enquanto as reduções absolutas de massa magra tendem a ser proporcionalmente menores e não estão consistentemente acompanhadas de perda de força ou função muscular. (PubMed)

Esse ponto é particularmente relevante quando extrapolamos resultados obtidos em indivíduos com obesidade para atletas musculosos.

4- O grande problema científico: fisiculturistas não são pacientes com obesidade

Aqui está provavelmente a maior limitação para considerar o emprego dessas drogas no fisiculturismo uma estratégia plenamente baseada em evidências.

Os grandes ensaios clínicos envolvendo semaglutida, liraglutida e tirzepatida foram realizados predominantemente em indivíduos com obesidade, sobrepeso e/ou diabetes mellitus tipo 2.

Esse perfil fisiológico é profundamente diferente daquele observado em um fisiculturista competitivo.

Um atleta em preparação pode apresentar grande quantidade de massa muscular, percentual de gordura já reduzido, elevado gasto energético decorrente do treinamento e ingestão calórica progressivamente restritiva.

Extrapolar diretamente os resultados obtidos em indivíduos com obesidade para atletas nessas condições constitui uma limitação científica importante.

Até o momento, faltam ensaios clínicos robustos que estabeleçam especificamente em fisiculturistas competitivos:

a) Dose ideal;

b) Momento adequado da preparação;

c) Efeitos sobre força e performance;

d) Impacto sobre glicogênio muscular;

e) Efeitos sobre recuperação;

f) Influência sobre massa muscular;

g) Repercussões durante a peak week;

h) Relação risco-benefício em atletas já extremamente magros.

Portanto, existe uma diferença fundamental entre afirmar que a farmacologia do GLP-1 possui sólida fundamentação científica e afirmar que existem protocolos cientificamente validados para sua utilização em preparação de fisiculturismo, pois a primeira afirmação é verdadeira, já a segunda ainda não.

5- Controle da fome: talvez a principal aplicação prática

Um dos argumentos mais plausíveis para o emprego dessas moléculas durante uma preparação está relacionado ao controle do apetite.

Déficits energéticos prolongados podem produzir aumento progressivo da fome, maior preocupação com alimentos e dificuldade de manutenção da dieta.

Para alguns atletas, portanto, a redução farmacológica do apetite poderia teoricamente aumentar a aderência nutricional, porém existe um paradoxo.

Aquilo que inicialmente representa vantagem pode transformar-se em problema.

Uma supressão excessiva do apetite pode dificultar o consumo adequado de proteínas, carboidratos, micronutrientes e calorias necessárias para sustentar o treinamento.

No fisiculturismo, portanto, maior supressão alimentar não significa necessariamente melhor resultado.

A intervenção farmacológica deveria, em tese, facilitar o planejamento nutricional — e não inviabilizá-lo.

6- Proteína, treinamento resistido e preservação muscular

Se houver utilização clínica de terapias incretínicas em indivíduos que praticam treinamento de força, a preservação muscular assume importância central.

Treinamento resistido e ingestão proteica adequada constituem ferramentas fundamentais para preservação da massa muscular durante períodos de restrição energética.

O consenso do Comitê Olímpico Internacional sobre nutrição e suplementação em atletas destaca a importância da disponibilidade proteica associada ao treinamento resistido para manutenção e desenvolvimento de massa magra. (PubMed Central (PMC))

No contexto do GLP-1, isso ganha relevância adicional, uma vez que uma revisão de 2025 chamou atenção para a possibilidade de redução de músculo esquelético durante grandes perdas ponderais e recomendou estratégias destinadas à preservação muscular, especialmente em indivíduos vulneráveis. (ScienceDirect)

Para o fisiculturista, portanto, acompanhar simplesmente o peso corporal seria insuficiente.

Avaliação de composição corporal, desempenho no treinamento, ingestão proteica, recuperação, sinais clínicos e evolução da força podem oferecer informações muito mais relevantes.

7-  Mecanismos farmacológicos e aparelho gastrointestinal

Os efeitos adversos gastrointestinais constituem outro ponto importante.

Náuseas, sensação de plenitude, constipação, diarreia, refluxo e desconforto abdominal podem ocorrer durante o tratamento.

Em um indivíduo sedentário, esses sintomas já podem representar inconvenientes clínicos.

Em um atleta submetido a treinamento intenso, sessões de cardio, restrição energética e grandes alterações alimentares, podem adquirir importância adicional.

O retardamento do esvaziamento gástrico também pode interferir na tolerabilidade de refeições próximas ao treinamento.

Consequentemente, utilizar agonistas de GLP-1 apenas porque determinada substância "seca" ou "tira a fome" representa uma interpretação excessivamente simplificada da farmacologia.

8- GLP-1 não é um agente de definição muscular

Outro equívoco frequente é tratar essas moléculas como se fossem drogas específicas para "definição".

A redução da gordura corporal resulta fundamentalmente do balanço energético negativo produzido, entre outros mecanismos, pela menor ingestão calórica.

O medicamento pode facilitar esse processo, mas não substitui planejamento nutricional, treinamento, recuperação e periodização.

Além disso, quanto menor o percentual de gordura do atleta, mais relevante se torna discutir a relação entre o benefício adicional de uma intervenção e suas possíveis repercussões sobre massa magra, ingestão alimentar e desempenho.

O fisiculturista não precisa simplesmente ficar mais leve.

Ele precisa chegar ao palco mais condicionado sem sacrificar desnecessariamente o tecido que levou anos para construir.

9-  A fase de peak week merece atenção especial

Os últimos dias anteriores a uma competição apresentam particularidades fisiológicas.

Nessa fase podem ocorrer alterações programadas de carboidratos, água, sódio, volume de treinamento e ingestão alimentar com o objetivo de otimizar aparência muscular.

É também um período em que o conteúdo gastrointestinal pode interferir visualmente na região abdominal.

Apesar disso, não existem evidências clínicas robustas que estabeleçam protocolos de GLP-1 especificamente para a peak week.

A presença de náuseas, distensão, constipação ou alterações do esvaziamento gástrico poderia inclusive produzir resultados opostos aos desejados.

Qualquer estratégia nessa fase que não tenha sido adequadamente estudada deve ser interpretada com especial cautela.

10- Ciência médica ou empirismo?

Talvez a resposta mais correta seja: existem elementos dos dois.

Existe ciência robusta demonstrando que agonistas de GLP-1 e terapias incretínicas promovem perda de peso, reduzem massa adiposa e modificam mecanismos neuroendócrinos relacionados à ingestão alimentar.

Existe também uma literatura crescente sobre seus efeitos na composição corporal.

Por outro lado, a aplicação específica dessas drogas na preparação de fisiculturistas permanece pouco estudada.

Quando um protocolo esportivo define doses, períodos, combinações ou momentos específicos da preparação com base exclusivamente na experiência de atletas, treinadores ou relatos informais, estamos diante de empirismo.

O empirismo não significa necessariamente que determinada observação esteja errada. Muitas hipóteses científicas surgem inicialmente da observação.

Mas uma prática somente deixa de ser predominantemente empírica quando suas hipóteses são submetidas à investigação sistemática, sendo que essa distinção precisa ser preservada.

11- A Medicina Esportiva deve estudar aquilo que os atletas já estão utilizando

Ignorar o uso dessas substâncias no ambiente esportivo não fará com que ele desapareça.

A história da Medicina Esportiva demonstra que inúmeras práticas inicialmente desenvolvidas dentro do esporte posteriormente se transformaram em objetos legítimos de investigação científica.

O mesmo precisa acontecer com as terapias incretínicas, pois são necessários estudos envolvendo atletas treinados e, especificamente, fisiculturistas, avaliando composição corporal por métodos adequados, massa muscular esquelética, força, desempenho, gasto energético, ingestão alimentar, marcadores metabólicos e evolução longitudinal.

Somente então será possível determinar em quais circunstâncias essas moléculas apresentam benefício, neutralidade ou prejuízo para essa população.

12- Considerações finais

Os agonistas do receptor de GLP-1 representam uma das maiores transformações recentes da farmacologia metabólica. 

Sua eficácia no tratamento da obesidade e na redução de massa adiposa encontra amplo respaldo científico.

Entretanto, transportar essa farmacologia diretamente para o fisiculturismo competitivo exige cautela.

A preparação de um atleta não pode ser analisada exclusivamente pela balança.

No fisiculturismo, qualidade da perda ponderal é mais importante que quantidade de peso perdido.

Preservar massa muscular, desempenho, capacidade de treinamento e estado nutricional enquanto se reduz gordura corporal constitui o verdadeiro desafio.

Assim, o uso de GLP-1 no fisiculturismo encontra-se atualmente em uma zona de transição entre farmacologia baseada em evidências e aplicação esportiva ainda parcialmente empírica.

Podemos dizer que a molécula possui ciência em sua utilização para obesidade.

Mas os protocolos específicos empregados nas preparações competitivas de fisiculturismo ainda carecem de validação científica adequada.

Transformar empirismo em ciência exige justamente aquilo que a Medicina sempre fez diante de novas práticas: observar, questionar, mensurar, comparar e produzir evidências.

Referências Bibliográficas 

KARAKASIS, P. et al. Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition: systematic review and network meta-analysis. Metabolism, 2025. (PubMed)

LAVERDE, L. P. et al. Effect of GLP-1 receptor agonists at doses for obesity management on muscle health: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. International Journal of Obesity, 2026. (PubMed)

ANYIAM, O. et al. How do glucagon-like peptide-1 receptor agonists affect measures of muscle mass in individuals with, and without, type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, 2025. (PubMed Central (PMC))

SCHEEN, A. J. GLP-1 receptor agonists, body composition, skeletal muscle and risk of sarcopaenia. Diabetes & Metabolism, 2025. (ScienceDirect)

BHANDARKAR, A.; BHAT, S.; KAPOOR, N. Effect of GLP-1 receptor agonists on body composition. Current Opinion in Endocrinology, Diabetes and Obesity, 2025. (PubMed)

RYAN, D. H. New drugs for the treatment of obesity: do we need approaches to preserve muscle mass? Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders, 2025. (Springer Nature Link)

MAUGHAN, R. J. et al. IOC consensus statement: dietary supplements and the high-performance athlete. British Journal of Sports Medicine. (PubMed Central (PMC))

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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