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Solidão na era da conectividade digital: como o comportamento evitativo está mudando a forma de se relacionar

Conversamos com a psicóloga, psicanalista e autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo”, Danielle Vieira, sobre como a hiperconexão, o medo da vulnerabilidade e o comportamento evitativo estão transformando a maneira como nos relacionamos

Solidão na era da conectividade digital: como o comportamento evitativo está mudando a forma de se relacionar Crédito: Divulgação

Nunca estivemos tão conectados e ao mesmo tempo, a solidão nunca esteve tão presente no debate sobre saúde e relações humanas. 

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado pela Comissão sobre Conexão Social em junho de 2025, estima que 16% da população mundial, aproximadamente uma em cada seis pessoas, vivencie a solidão. 

Este dado pode nos ajudar a compreender um fenômeno relacionado à conectividade digital em um mundo cada vez mais propenso à solidão. Embora as tecnologias tenham ampliado as possibilidades de contato, elas não necessariamente estão produzindo vínculos mais profundos. Para algumas pessoas, a facilidade de se conectar e, ao mesmo tempo, de se afastar pode reforçar o medo da vulnerabilidade, a dificuldade de intimidade e os comportamentos evitativos.

Para compreender como esse movimento está transformando a maneira como nos relacionamos, conversamos com a psicóloga, psicanalista e autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo”, Danielle Vieira. Na entrevista, ela fala sobre hiperconexão, solidão e o medo da vulnerabilidade.

Relação entre solidão e a conectividade contemporânea 

As redes sociais e aplicativos de relacionamento ampliaram as possibilidades de contato, mas também introduziram novas formas de interação, marcadas pela rapidez, pela comparação e pela possibilidade constante de substituir uma experiência por outra. 

É diante desse cenário que a psicóloga, psicanalista e autora, Danielle Vieira, investiga como o excesso de opções, a tentativa de controle e o medo do envolvimento podem interferir na construção dos vínculos. 

Em nossa conversa com a autora ela comenta que parte da explicação está justamente na diferença entre estar conectado e estabelecer intimidade. As redes permitem acompanhar a rotina de alguém, reagir a uma publicação ou trocar mensagens, mas essas interações não necessariamente produzem a sensação de ser reconhecido e acompanhado.

No ambiente dos aplicativos de relacionamento, por exemplo, esse processo pode ser reforçado pela lógica da escolha permanente. Os perfis são apresentados em sequência e avaliados rapidamente, criando a sensação de que sempre existe outra possibilidade disponível. Pesquisas recentes apontam associações entre o uso de aplicativos baseados em swipes e alguns indicadores de sofrimento emocional e desregulação comportamental.

Nesse contexto, a tecnologia também pode tornar mais visíveis determinadas formas de interação, como o ghosting, as relações indefinidas, a dificuldade de comunicar interesse e a manutenção simultânea de diferentes possibilidades. Esses comportamentos podem ser compreendidos como estratégias de lidar com as incertezas e os riscos inerentes à intimidade

É o que Danielle Vieira chama de “mundo evitativo”: uma realidade em que existe desejo de vínculo, mas também uma tentativa constante de controlar aquilo que o vínculo provoca. A proposta do livro surge justamente a partir dessa tensão entre o desejo de amar e a dificuldade de sustentar o amor quando ele exige vulnerabilidade e imprevisibilidade.

A psicóloga e psicanalista também reforma que não significa que todo comportamento de afastamento possa ser explicado por um único estilo de apego. As relações humanas são influenciadas por história pessoal, contexto social, experiências anteriores e circunstâncias presentes. A contribuição dessa perspectiva está em observar o afastamento não apenas como falta de interesse, mas, em determinados casos, como uma estratégia de proteção.

Quando evitar também vira um comportamento

Na prática, esse padrão pode aparecer de maneiras bastante comuns. Evitar dizer claramente o que se sente, demorar deliberadamente para responder para não demonstrar interesse, desaparecer depois de um conflito, manter uma relação indefinida ou acompanhar alguém pelas redes sem tomar nenhuma iniciativa são exemplos citados pela psicóloga.

Para Danielle, o ponto central está menos em condenar esses comportamentos do que em perceber o que eles revelam. A dificuldade de comunicar o que se deseja pode indicar uma tentativa de evitar a exposição emocional que acompanha qualquer relação mais próxima.

Mas afinal, o que significa viver em um “mundo evitativo”?

Para compreender melhor como essa dinâmica aparece no cotidiano, Danielle Vieira respondeu a perguntas sobre solidão, aplicativos, apego e as estratégias usadas para evitar o sofrimento nos relacionamentos. Confira a entrevista completa: 

Por que nos sentimos tão sós em uma era de hiperconexão digital?

“Porque conexão não significa necessariamente intimidade. Interações nas redes sociais são uma forma de manter contato, mas não necessariamente de fazer laço com o outro, de estar presente em momentos reais. No livro eu digo que estamos todos buscando conexão, mas cada vez mais solitários, porque a atenção está fragmentada e os vínculos também. A conexão mais profunda, muitas vezes, acaba sendo um story visualizado, um like... e isso está muito longe da experiência de se sentir realmente visto, reconhecido e acompanhado por alguém.”

Como a cultura da velocidade e o “cardápio infinito” dos aplicativos diminuem a capacidade de construir intimidade real?

“Os aplicativos inserem as relações numa lógica muito próxima da lógica do consumo, as pessoas viram perfis, passam a cumprir listas de requisitos e são comparadas como produtos numa prateleira. Além disso, existe a sensação permanente de que pode haver alguém melhor logo no próximo perfil. Então, quando surge a primeira frustração, o primeiro desencaixe ou simplesmente o tédio, trocar parece mais fácil do que construir. A intimidade, por outro lado, é lenta, precisa de tempo, de tédio, de paciência afetiva, coisa que parece estar um pouco em falta no amor moderno.”

O papel do apego evitativo: por que o medo da rejeição faz com que as pessoas prefiram o isolamento à entrega emocional?

“No apego evitativo, a proteção acontece através do afastamento, começa na infância quando as necessidades emocionais da criança são frequentemente ignoradas ou rejeitadas, ela aprende então que confiar em alguém não é seguro. Na vida adulta, isso pode aparecer como uma valorização excessiva da independência e da autossuficiência, dificuldade em pedir apoio e desconforto diante da intimidade ou da dependência emocional. A pessoa pode até desejar o vínculo, mas utiliza o mecanismo de defesa do afastamento justamente quando percebe que a relação está ficando emocionalmente mais próxima.”

O que significa, na prática, viver em um “mundo evitativo”? Quais comportamentos cotidianos melhor representam essa ideia?

“Se eu pudesse escolher só um comportamento eu diria que é a incapacidade de comunicar o que se deseja. Um mundo evitativo é um mundo que deseja profundamente um vínculo real, mas tenta se proteger constantemente daquilo que um vínculo real exige. Isso aparece em comportamentos muito cotidianos: fingir que não se importa para parecer mais desejável, evitar responder rápido para não demonstrar interesse, não dizer claramente o que sente, deixar relações indefinidas para não assumir um compromisso, manter várias opções abertas, desaparecer em vez de ter uma conversa difícil e encarar um conflito, continuar acompanhando alguém pelas redes sociais sem fazer nenhum movimento real de aproximação.”

O que você percebeu, durante a construção do livro, sobre a maneira como as pessoas contemporâneas estão tentando se proteger do sofrimento amoroso?

“No final, o que me parece é que criamos muitas maneiras de evitar o sofrimento como não escolher, manter as opções abertas, racionalizar excessivamente, desaparecer, idealizar demais, ficar no quase, controlar a quantidade de afeto que oferecemos, praticar o desapego, fingir que não se importa, sexualizar demais, entre tantas outras formas de evitação. E amar é em alguma medida sofrer, não há seguro que nos proteja disso, é preciso uma boa dose de coragem!”

Para a autora, essa percepção pode ser o início de uma mudança. Em vez de buscar uma fórmula para se relacionar, ela propõe observar o próprio comportamento diante do afeto: aproximar-se, fugir, tentar controlar, oscilar ou esconder o que se sente. A partir dessa observação, torna-se possível identificar estratégias automáticas de proteção e, quando necessário, buscar ajuda profissional.

 

Sobre a autora: Danielle Vieira é psicóloga e psicanalista. Atua há mais de dez anos na clínica, pesquisando as relações contemporâneas, os impasses do afeto e as formas de evitação emocional no mundo atual. Vive entre países, experiência que atravessa sua escrita e sua escuta clínica. 

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