SAÚDE

Quando a IA ocupa o lugar da terapia: quais são os riscos?

O uso crescente da inteligência artificial como terapeuta acende um alerta: quando a IA pode ocupar o lugar de um profissional de saúde mental? Quais são os riscos de confiar e seguir os conselhos de um chatbot? Especialistas comentam o uso da ferramenta e explicam a importância do processo terapêutico

Quando a IA ocupa o lugar da terapia: quais são os riscos? Crédito: Divulgação

Nos últimos anos, o avanço das inteligências artificiais (IAs) transformou a maneira como as pessoas trabalham, estudam e realizam tarefas do dia a dia. Entre as principais ferramentas dessa revolução estão os chatbots, que se tornaram aliados na busca por produtividade, auxiliando na criação de conteúdos, na organização de informações, na programação, na tradução de textos e na resolução de dúvidas em poucos segundos. 

Com a popularização dessas tecnologias, os usuários passaram a explorar novas formas de utilizá-las, desde a decoração de um apartamento e a edição de fotos e vídeos até a busca por orientações sobre questões pessoais. Uma das funções que mais ganhou espaço na rotina de milhões de pessoas é o uso da IA para conversar sobre ansiedade, relacionamentos, conflitos familiares e momentos de solidão. O problema, segundo especialistas, começa quando essa conversa deixa de ser um apoio pontual e passa a substituir um processo psicoterapêutico.

Pesquisas recentes mostram que a procura por ferramentas de IA para apoio emocional vem crescendo em diferentes públicos. 

Um levantamento da Arco Educação revelou que 1 em cada 5 estudantes brasileiros afirma recorrer regularmente à inteligência artificial quando se sente sozinho ou precisa conversar. O estudo, realizado com 936 alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio em escolas de todas as regiões do país, também identificou que adolescentes com maiores dificuldades para criar vínculos sociais são justamente aqueles que mais utilizam essas plataformas como companhia. 

O movimento também aparece entre adultos. Um estudo conduzido nos Estados Unidos com 1.545 trabalhadores mostrou que 74% dos entrevistados utilizam IA para algum tipo de suporte emocional, enquanto 64% buscam aconselhamento sobre carreira. Apesar da popularidade, apenas 12% afirmaram que a tecnologia realmente reduziu a sensação de solidão.

Qual é a diferença entre uma conversa com a IA e uma conversa com um psicólogo?

Apesar da evolução dos modelos de linguagem, especialistas em Psicologia ressaltam que existe uma diferença fundamental entre uma conversa com inteligência artificial e um processo psicoterapêutico.

Para a psicóloga Sofia Barbosa, essa diferença começa pelos próprios objetivos de cada um.

"Uma IA tem por objetivo enriquecer sua base de dados e sofisticar suas respostas. Para isso, ela mantém o usuário engajado na conversa, utilizando principalmente reforço positivo e validação. Já a psicoterapia busca ajudar o paciente a transformar aspectos que geram sofrimento ou limitações. Esse processo envolve reflexão, confronto de contradições e mudanças que, muitas vezes, são difíceis."

Segundo a especialista, uma inteligência artificial pode responder de forma acolhedora e complacente, enquanto um terapeuta precisa, em determinados momentos, questionar padrões de pensamento ou comportamento que contribuem para o sofrimento do paciente.

Na psicologia, a relação construída entre terapeuta e paciente é considerada parte essencial do próprio tratamento.

Ao longo das sessões, o profissional conhece a história de vida da pessoa, pode observar mudanças sutis de comportamento, identifica padrões emocionais, percebe inconsistências entre discurso e comportamento e adapta continuamente o seu diálogo.

Em nossa conversa, a psicóloga Sofia Barbosa explicou que existem fenômenos próprios da clínica psicológica, como o enquadre terapêutico, que dependem da interação entre duas pessoas.

"A relação psicoterapeuta-paciente é única. Uma IA não tem consciência; ela consegue apenas mimetizar uma consciência. Ela não relacionará o sofrimento atual com experiências vividas na infância nem chegará aos insights construídos ao longo de meses de terapia. A unicidade desses momentos só pode ser vivida entre dois seres humanos."

Outro comportamento que tem sido discutido por pesquisadores e profissionais da área é a tendência dos chatbots de reforçar vieses cognitivos e validar interpretações inadequadas sobre situações complexas. Um estudo publicado no Journal of Medical Internet Research (2025) aponta que profissionais de saúde mental veem riscos de respostas potencialmente prejudiciais, excessivamente afirmativas e capazes de favorecer a dependência do usuário quando esses sistemas são utilizados como apoio terapêutico.

Além disso, o uso frequente dos chatbots tem sido associado ao chamado “Psicose Induzida por IA”, um termo não clínico utilizado para descrever situações em que o usuário pode apresentar uma perda de percepção da realidade, com possível intensificação de pensamentos delirantes.

Segundo Sofia, já existem relatos publicados sobre episódios de psicose em que delírios foram reforçados durante interações com inteligências artificiais.

"Relatos publicados no PubMed mostram riscos associados ao fenômeno da Psicose Induzida por IA. Em episódios psicóticos, os delírios de pacientes podem ser alimentados pela forma como a IA responde, fortalecendo a crise e, em alguns casos, contribuindo para desfechos graves. Além disso, erros de diagnóstico e vieses da própria plataforma também preocupam."

O posicionamento do Conselho Federal de Psicologia

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou um posicionamento específico sobre o uso da inteligência artificial na prática psicológica e lançou a cartilha Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental.

O material reconhece que essas tecnologias podem ampliar o acesso à informação e oferecer recursos educativos, mas reforça que chatbots não substituem atendimento psicológico e não podem ser apresentados como equivalentes à psicoterapia.

O documento também chama atenção para riscos relacionados à privacidade dos dados, ao sigilo das informações compartilhadas, às limitações técnicas desses sistemas e à necessidade de regulamentação ética para seu uso na área da saúde mental.

Antes de compartilhar conteúdos íntimos com qualquer ferramenta de inteligência artificial, especialistas recomendam que os usuários consultem as políticas de privacidade e compreendam como esses dados poderão ser utilizados.

Segundo especialistas, em que os chatbots podem ajudar?

Na prática cotidiana, a inteligência artificial pode ser útil para:

  • organizar pensamentos antes de uma sessão de terapia;
  • sugerir exercícios de escrita reflexiva;
  • explicar conceitos relacionados à saúde mental;
  • ajudar o paciente a estruturar temas que deseja discutir com seu psicólogo.

Mesmo nesses casos, especialistas recomendam que essas ferramentas sejam utilizadas como apoio e não como principal forma de pesquisa. 

Para a psicóloga a recomendação é que a pessoa busque ajuda profissional principalmente se estiver passando por um sofrimento intenso que afete a sua rotina. 

"O sofrimento psíquico é um importante norteador. Se seus pensamentos, comportamentos ou aspectos da sua personalidade causam sofrimento para você ou para as pessoas ao seu redor, talvez seja o momento de buscar ajuda de um psicoterapeuta."

Prejuízo nas relações, dificuldades no trabalho ou nos estudos, alterações importantes de humor, ansiedade ou qualquer situação envolvendo risco à própria vida, são pontos de atenção sinalizados por profissionais da área para a busca de atendimento psicoterapêutico. 

A psicoterapia também atua em outros campos como o autoconhecimento e pode ser procurada em qualquer momento da vida.

A rápida expansão da inteligência artificial gera novas possibilidades para democratizar informações sobre saúde mental e ampliar o acesso a ferramentas de apoio. No entanto, os estudos apresentados indicam que esses recursos ainda possuem limitações importantes quando comparados ao cuidado oferecido por profissionais de saúde mental.

As condições socioeconômicas como impulsionadoras da busca por atendimento terapêutico com IA

No Brasil, cerca de 60% da população não consegue pagar por atendimento psicológico particular e depende de serviços públicos e alternativas, como os pontos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as clínicas-escola de universidades e plataformas on-line com preços sociais, como o PsyMeet. Os dados são uma estimativa baseada em um levantamento realizado pela Doctoralia e divulgado com exclusividade pela CNN.

De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), apenas 25% da população brasileira possui plano de saúde privado.

Como solicitar atendimento psicológico pela rede pública?

Para solicitar atendimento psicológico gratuito pelo SUS, você deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima do seu endereço com um documento de identidade e cartão do SUS. Também é possível fazer a solicitação diretamente no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Plataformas com valores sociais 

  • PsyMeet
  • Terappia
  • Vittude

Algumas plataformas online oferecem atendimento psicológico com valores menores do que geralmente é cobrado por essas consultadas, com o objetivo de promover a procura por cuidados com a saúde mental e ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade financeira. 

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