PALAVRA DO ESPECIALISTA

Medicina de precisão na suplementação esportiva: o futuro da performance baseado na individualidade biológica

A suplementação esportiva evoluiu significativamente nas últimas décadas. Se antes as estratégias eram padronizadas para grandes grupos de atletas, atualmente a tendência é a individualização baseada nas características genéticas, metabólicas, fisiológicas e bioquímicas de cada indivíduo

Medicina de precisão na suplementação esportiva: o futuro da performance baseado na individualidade biológica Crédito: Divulgação/GenIA

Nesse contexto, surge a Medicina de Precisão aplicada à suplementação esportiva, um conceito que integra avanços da genômica, metabolômica, proteômica e nutrigenômica para otimizar desempenho, recuperação e saúde.

A Medicina de Precisão busca compreender que indivíduos diferentes podem apresentar respostas distintas ao mesmo suplemento, treinamento ou estratégia nutricional. Assim, a utilização de biomarcadores e testes genéticos permite selecionar intervenções mais eficazes e seguras, reduzindo tentativas empíricas e potencializando os resultados clínicos e esportivos.

1. Nutrigenômica e nutrigenética: a base da individualização

A nutrigenômica estuda como nutrientes e compostos bioativos modulam a expressão gênica, enquanto a nutrigenética avalia como as variações genéticas influenciam a resposta individual aos alimentos e suplementos.

Essa interação explica por que determinados atletas respondem de maneira excepcional à creatina, enquanto outros apresentam benefícios discretos; ou por que alguns indivíduos metabolizam rapidamente a cafeína, enquanto outros desenvolvem ansiedade, taquicardia e prejuízo no desempenho.

Esses conhecimentos permitem personalizar protocolos nutricionais de acordo com o perfil biológico de cada atleta, inaugurando uma nova era da suplementação baseada em evidências.

2. Polimorfismos genéticos e performance física

Diversos polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) já foram associados ao desempenho esportivo.

O gene ACTN3, conhecido como "gene da velocidade", influencia a produção da proteína alfa-actinina-3, presente predominantemente nas fibras musculares de contração rápida. Atletas portadores da variante funcional tendem a apresentar maior potencial para modalidades explosivas, enquanto indivíduos com deficiência dessa proteína podem demonstrar melhor adaptação às atividades de resistência.

Outro gene amplamente estudado é o ACE (Angiotensin-Converting Enzyme). Seu polimorfismo I/D está relacionado à eficiência cardiovascular, potência muscular e adaptação ao treinamento aeróbico ou anaeróbico, podendo influenciar inclusive a resposta ao treinamento de força.

3. Metabolismo da cafeína e o gene CYP1A2

A cafeína permanece entre os recursos ergogênicos mais utilizados no esporte. Entretanto, sua eficácia depende, em parte, da velocidade de metabolização hepática.

O gene CYP1A2 determina se o indivíduo apresenta metabolismo rápido ou lento da cafeína. Metabolizadores rápidos frequentemente obtêm melhora significativa da performance com doses entre 3 e 6 mg/kg, enquanto metabolizadores lentos podem apresentar maior incidência de efeitos adversos cardiovasculares e menor benefício ergogênico.

Essa informação permite adequar tanto a dose quanto o horário da administração.

4. COMT e a resposta aos estimulantes

O gene COMT (Catechol-O-Methyltransferase) participa da degradação das catecolaminas, incluindo adrenalina, noradrenalina e dopamina.

Polimorfismos nesse gene podem influenciar a tolerância aos estimulantes, especialmente cafeína, sinefrina e outros compostos utilizados em pré-treinos. Indivíduos com menor atividade enzimática podem apresentar maior sensibilidade aos estimulantes, exigindo protocolos mais conservadores.

5. MTHFR e o metabolismo do folato

As variantes do gene MTHFR podem comprometer o metabolismo do ácido fólico e aumentar as concentrações plasmáticas de homocisteína.

Nesses casos, pode ser mais apropriada a utilização de formas biologicamente ativas do folato, como o L-metilfolato, associadas a vitaminas B6 e B12, visando otimizar processos de metilação, recuperação tecidual e função cardiovascular.

6. Biomarcadores laboratoriais na medicina de precisão

A individualização da suplementação não depende exclusivamente da genética.

A avaliação integrada de exames laboratoriais permite identificar deficiências nutricionais, alterações hormonais e marcadores inflamatórios que direcionam intervenções específicas.

Entre os principais biomarcadores destacam-se ferritina, vitamina D, vitamina B12, folato, magnésio, zinco, creatina quinase (CK), proteína C reativa ultrassensível (PCR-us), perfil hormonal, glicemia, insulina, hemoglobina glicada e marcadores da função renal e hepática.

Essa abordagem aumenta a precisão terapêutica e reduz riscos relacionados à suplementação indiscriminada.

7. Metabolômica: conhecendo o metabolismo em tempo real

A metabolômica representa uma das áreas mais promissoras da Medicina de Precisão.

Por meio da análise de centenas de metabólitos circulantes, torna-se possível compreender como o organismo responde ao treinamento, ao estresse fisiológico e à suplementação, permitindo ajustes dinâmicos nas estratégias nutricionais.

Essa tecnologia aproxima a prática clínica da verdadeira medicina personalizada.

8. Inteligência artificial e medicina personalizada

A incorporação da inteligência artificial à medicina esportiva amplia significativamente a capacidade de integrar informações provenientes de exames laboratoriais, testes genéticos, composição corporal, monitorização fisiológica e desempenho esportivo.

Algoritmos capazes de analisar grandes volumes de dados podem auxiliar na previsão da resposta a suplementos, identificação precoce de riscos de lesão, monitoramento da recuperação e otimização do planejamento nutricional.

Embora ainda em expansão, essa integração representa um dos pilares da próxima geração da Medicina Esportiva.

9.Considerações finais

A Medicina de Precisão está redefinindo os conceitos tradicionais da suplementação esportiva. A compreensão das diferenças genéticas, metabólicas e fisiológicas entre os indivíduos permite desenvolver protocolos personalizados, potencializando resultados e reduzindo riscos associados à utilização indiscriminada de suplementos.

Mais do que escolher um produto, o desafio atual consiste em identificar qual suplemento, em qual dose, no momento adequado e para qual perfil biológico. Essa abordagem representa um avanço significativo rumo a uma prática baseada em evidências, segurança e individualização, consolidando a Medicina de Precisão como uma das principais tendências da medicina esportiva moderna.

Referências bibliográficas

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Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

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