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Copa do Mundo vai além do futebol e revela aspectos importantes da saúde mental, afirma psicóloga

Especialista explica como pertencimento, ansiedade, resiliência e emoções coletivas ajudam a entender por que o maior evento esportivo do planeta mobiliza milhões de pessoas dentro e fora dos estádios

Copa do Mundo vai além do futebol e revela aspectos importantes da saúde mental, afirma psicóloga Crédito: Divulgação

A cada quatro anos, a Copa do Mundo paralisa cidades, reúne famílias, movimenta bares e faz milhões de pessoas compartilharem as mesmas emoções. Mais do que um campeonato de futebol, o torneio representa um fenômeno social e psicológico capaz de revelar aspectos profundos do comportamento humano. A competição funciona como um verdadeiro laboratório da psique humana, tornando visíveis emoções e mecanismos que costumam permanecer escondidos no dia a dia.

O futebol desperta emoções que transcendem as quatro linhas do campo. Durante a Copa do Mundo, desconhecidos se unem em celebrações, dividem a tensão das partidas e compartilham vitórias e derrotas como se fossem uma só torcida. Esse fenômeno fortalece o sentimento de pertencimento, uma necessidade psicológica considerada um importante fator de proteção para a saúde mental, que faz as pessoas se perceberem como parte de um grupo, fortalecendo vínculos, identidade e conexão social. Durante a Copa, todos vestem as mesmas cores, cantam o mesmo hino e compartilham expectativas comuns. Por alguns instantes, as diferenças políticas, sociais e culturais ficam em segundo plano.

Segundo a psicóloga Maria Klien, o cérebro humano foi biologicamente preparado para viver em comunidade. “Momentos de conexão coletiva fortalecem vínculos emocionais e reduzem a sensação de isolamento”, explica.

A Copa do Mundo evidencia a dificuldade que muitas pessoas têm em lidar com a imprevisibilidade. Nenhum torcedor é capaz de controlar o resultado de uma partida, mas é comum recorrer a superstições, rituais ou comportamentos simbólicos na tentativa de influenciar o desfecho do jogo. “Entramos em campo todos os dias sem conhecer o placar”, afirma a psicóloga. Essa dinâmica reflete um padrão presente na vida cotidiana: a ansiedade gerada pela tentativa de controlar aquilo que está fora do alcance.

Essa intensidade das emoções possui uma explicação biológica. De acordo com a especialista, o organismo reage às partidas como se estivesse vivendo uma experiência real. Em jogos decisivos, aumentam a frequência cardíaca, a adrenalina, a noradrenalina, o cortisol e a dopamina. O cérebro reage aos símbolos como se eles representassem acontecimentos concretos, podendo provocar alegria intensa, tensão, medo ou tristeza, influenciando diretamente o corpo. Por isso, muitas pessoas chegam a reagir até mesmo durante as reprises das partidas, como se pudessem interferir no resultado.

A derrota esportiva é outro fator que nos convida a uma importante reflexão sobre a saúde mental. Nenhuma seleção vence todas as Copas e nenhum atleta constrói uma carreira sem desafios. Quando a derrota é compreendida como parte da trajetória, ela deixa de ser vista como um fracasso definitivo e passa a ser uma oportunidade de aprendizado. Essa mudança de perspectiva fortalece a resiliência, reduz a autocrítica excessiva e aumenta a capacidade de enfrentar novos desafios com mais equilíbrio emocional. “Quando aprendemos a enxergar a derrota como parte do processo, desenvolvemos melhor capacidade de adaptação, tolerância à frustração e confiança para enfrentar novos desafios”, esclarece.

Outro fenômeno observado durante a competição é a rápida mudança na percepção sobre jogadores e treinadores. As expectativas, frustrações e desejos são projetados nos atletas. Um jogador pode ser considerado vilão em uma partida e herói na seguinte. Isso evidencia a tendência da mente humana de buscar personagens que representem as emoções coletivas. Nesse contexto, a Copa do Mundo também reforça a importância do autodomínio, conceito abordado por Maria Klien em seu livro “Guia do Autodomínio”. Segundo a psicóloga, em vez de tentar controlar o resultado da partida ou transformar jogadores em heróis e vilões, o caminho mais saudável é administrar as próprias emoções e concentrar a atenção naquilo que realmente está sob o próprio domínio. Essa postura reduz a ansiedade, favorece o equilíbrio emocional e fortalece a resiliência diante das incertezas da vida.

Outro aspecto relevante são as vitórias coletivas, que influenciam diretamente o humor da população. Quando um time vence, muitas pessoas relatam mais esperança, energia, disposição e vontade de encontrar amigos ou familiares, ou seja, as emoções são contagiosas. Da mesma forma que a esperança se espalha, o medo e a ansiedade também podem se propagar em momentos de derrota ou grande expectativa.

O futebol não muda quem somos, apenas amplia aquilo que já existe dentro de nós, ou seja, pode aumentar a necessidade de pertencimento, nossos medos, nossa dificuldade em lidar com a incerteza e, ao mesmo tempo, nossa extraordinária capacidade de sonhar coletivamente. Talvez seja por isso que um jogo consiga fazer um país inteiro prender a respiração. “No fundo, nunca estamos torcendo apenas por um time. Estamos torcendo por uma parte de nós que continua acreditando que vale a pena seguir jogando e vivendo, mesmo sem a garantia da vitória", conclui.

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