PALAVRA DO ESPECIALISTA

Artigo - A ação do treinamento resistido de musculação como medicamento antidepressivo natural

A depressão é uma condição neuropsiquiátrica multifatorial caracterizada por alterações persistentes do humor, redução da motivação, fadiga, perda de interesse por atividades habituais, alterações do sono e comprometimento cognitivo

A ação do treinamento resistido de musculação como medicamento antidepressivo natural Crédito: Divulgação

Segundo a Organização Mundial da Saúde, centenas de milhões de pessoas convivem atualmente com transtornos depressivos, tornando-se um importante problema de saúde pública mundial.

Embora os antidepressivos farmacológicos permaneçam como importante recurso terapêutico, observa-se crescente interesse científico pelos chamados “antidepressivos fisiológicos”, dentre os quais o treinamento resistido de musculação ocupa posição de destaque.

A musculação não atua apenas sobre a estética corporal ou desenvolvimento muscular. Na realidade, seus efeitos alcançam profundamente os sistemas nervoso, endócrino, imunológico e metabólico, promovendo modificações neurobiológicas semelhantes às observadas em diversos tratamentos farmacológicos antidepressivos.

1- Neurobiologia da depressão

Durante muitos anos acreditou-se que a depressão estava associada exclusivamente à deficiência de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina.

Atualmente sabe-se que a fisiopatologia é muito mais complexa, envolvendo:

• Neuroinflamação crônica;

• Disfunção mitocondrial;

• Resistência cerebral à insulina;

• Redução da neuroplasticidade;

• Diminuição do Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF);

• Hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal;

• Aumento crônico do cortisol;

• Alterações do sistema glutamatérgico.

Nesse contexto, o exercício resistido emerge como uma intervenção capaz de atuar simultaneamente em praticamente todos esses mecanismos.

2- Aumento da produção de serotonina

A serotonina é um dos neurotransmissores mais associados à sensação de bem-estar psicológico.

Durante o treinamento resistido ocorre aumento da captação cerebral do aminoácido triptofano, precursor direto da serotonina.

O exercício promove ainda modificações na relação entre aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) e triptofano livre, favorecendo maior disponibilidade cerebral deste substrato para síntese serotoninérgica.

Como consequência observa-se:

• Melhora do humor;

• Redução da ansiedade;

• Diminuição da irritabilidade;

• Melhora da qualidade do sono.

Tais efeitos apresentam relevância clínica significativa em indivíduos com sintomas depressivos leves e moderados.

3- Liberação de endorfinas: os opioides naturais do organismo

Durante o treinamento resistido ocorre aumento da produção de beta-endorfina, um neuropeptídeo sintetizado principalmente na hipófise anterior.

As endorfinas atuam em receptores opioides cerebrais produzindo:

• Sensação de prazer;

• Analgesia natural;

• Relaxamento emocional;

• Sensação de recompensa.

Esse fenômeno é frequentemente descrito como “euforia pós-exercício”, semelhante ao chamado “runner’s high” observado em exercícios aeróbicos.

Sob perspectiva neuroquímica, trata-se de um mecanismo natural de modulação emocional que contribui significativamente para a redução dos sintomas depressivos.

4- Ação sobre o sistema dopaminérgico

A dopamina exerce papel fundamental na motivação, produtividade, recompensa e sensação de realização.

Pacientes deprimidos frequentemente apresentam diminuição da atividade dopaminérgica mesolímbica.

O treinamento resistido estimula:

• Liberação de dopamina;

• Sensibilidade dos receptores dopaminérgicos;

• Atividade do núcleo accumbens;

• Circuitos de recompensa cerebral.

Essa adaptação contribui para aumento da disposição física e mental, reduzindo a apatia frequentemente observada em pacientes depressivos.

5- BDNF: o fertilizante do cérebro

Um dos achados mais importantes da neurociência moderna foi a identificação da relação entre depressão e redução dos níveis de BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor).

O BDNF atua como verdadeiro fertilizante cerebral, estimulando:

• Neurogênese;

• Plasticidade sináptica;

• Formação de novas conexões neurais;

• Sobrevivência neuronal.

O treinamento resistido aumenta significativamente a expressão de BDNF no hipocampo, região cerebral diretamente envolvida na memória, aprendizagem e regulação emocional.

Esse mecanismo aproxima a musculação de diversos antidepressivos modernos que também atuam elevando os níveis dessa neurotrofina.

6- Redução do cortisol e do estresse crônico

O excesso de cortisol encontra-se associado a:

• Ansiedade;

• Insônia;

• Perda muscular;

• Inflamação sistêmica;

• Sintomas depressivos.

Quando adequadamente prescrito, o treinamento resistido promove melhor regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, reduzindo os efeitos deletérios do estresse crônico.

Observa-se ainda melhora da resiliência fisiológica diante de situações estressantes, fator importante para a prevenção de recaídas depressivas.

7- Efeito anti-inflamatório sistêmico

A neuroinflamação é atualmente considerada um dos pilares fisiopatológicos da depressão.

Pacientes deprimidos frequentemente apresentam aumento de biomarcadores inflamatórios como:

• TNF-α;

• IL-1β;

• IL-6;

• Proteína C reativa.

O músculo esquelético atua como importante órgão endócrino, liberando mioquinas com propriedades anti-inflamatórias durante a contração muscular.

Entre elas destacam-se:

• IL-10;

• Irisina;

• Mioquina FNDC5.

Essas substâncias auxiliam na modulação imunológica e contribuem para um ambiente neuroquímico mais favorável ao equilíbrio emocional.

8- Testosterona, hormônio do crescimento e bem-estar

A musculação promove estímulo fisiológico à produção de diversos hormônios anabólicos, incluindo:

• Testosterona;

• Hormônio do Crescimento (GH);

• IGF-1.

Além dos efeitos corporais, esses hormônios exercem importante influência sobre:

• Energia mental;

• Motivação;

• Vitalidade;

• Autoestima;

• Função cognitiva.

A melhora da composição corporal frequentemente observada durante programas de treinamento resistido contribui ainda para fortalecimento da autoimagem e da autoconfiança.

9- O Músculo esquelético como órgão endócrino antidepressivo

Uma das descobertas mais fascinantes da medicina moderna consiste no reconhecimento do músculo esquelético como um órgão endócrino funcional.

Durante o exercício resistido são liberadas dezenas de mioquinas capazes de atuar em:

• Cérebro;

• Fígado;

• Tecido adiposo;

• Sistema imunológico.

Essas substâncias exercem comunicação bioquímica sistêmica, promovendo adaptações metabólicas e neuropsiquiátricas que ajudam a explicar os benefícios antidepressivos da musculação.

Sob essa perspectiva, cada sessão de treinamento representa um verdadeiro estímulo farmacológico fisiológico produzido pelo próprio organismo.

10- Aplicações clínicas em medicina do esporte e psiquiatria

Diversas diretrizes internacionais já reconhecem o exercício físico como ferramenta terapêutica adjuvante no tratamento da depressão.

O treinamento resistido pode ser particularmente útil em pacientes que apresentam:

• Depressão leve a moderada;

• Fadiga crônica;

• Baixa autoestima;

• Sarcopenia;

• Obesidade;

• Síndrome metabólica.

A associação entre exercício físico, nutrição adequada, qualidade do sono e acompanhamento médico especializado representa atualmente uma das estratégias mais promissoras para abordagem integrativa da saúde mental.

11- Considerações finais

O treinamento resistido de musculação transcende sua tradicional função estética e esportiva, consolidando-se como uma poderosa ferramenta terapêutica capaz de atuar sobre diversos mecanismos fisiopatológicos envolvidos na depressão.

Por meio da modulação da serotonina, dopamina, endorfinas, BDNF, cortisol, mioquinas anti-inflamatórias e hormônios anabólicos, a musculação produz uma verdadeira intervenção neuroquímica sistêmica que favorece o equilíbrio emocional e a saúde mental.

Diante das evidências científicas atuais, torna-se plausível considerar o treinamento resistido como um dos mais eficazes antidepressivos naturais disponíveis, apresentando benefícios simultâneos para o cérebro, metabolismo, composição corporal e qualidade de vida.

Referências bibliográficas

1. American College of Sports Medicine. ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription. 11th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2021.

2. Phillips SM. Resistance exercise: good for more than just Grandma and Grandpa’s muscles. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism. 2007.

3. Schuch FB et al. Exercise as a treatment for depression: a meta-analysis. Journal of Psychiatric Research. 2016.

4. Pedersen BK; Febbraio MA. Muscles, exercise and obesity: skeletal muscle as a secretory organ. Nature Reviews Endocrinology. 2012.

5. Ernst C; Olson AK; Pinel JP; Lam RW; Christie BR. Antidepressant effects of exercise: evidence for an adult-neurogenesis hypothesis? Journal of Psychiatry and Neuroscience. 2006.

6. World Health Organization. Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Geneva: WHO. 2017.

Dr. Edson Carlos Z. Rosa

Cirurgião, Fisiologista e Pesquisador em Ciências Médicas, Cirúrgicas e do Esporte

Diretor do Instituto de Medicina e Fisiologia do Esporte e Exercício (Metaboclinic Institute), Diretor Executivo do Centro Nacional de Ciências Cirúrgicas e Medicina Sistêmica (Cenccimes) / Diretor Executivo da União Brasileira de Médicos-Biocientistas (Unimédica) /  Presidente e Fundador da Ordem Nacional dos Cirurgiões Faciais (ONACIFA), Presidente e Fundador da Sociedade Brasileira de Medicina Humana (SOBRAMEH) e Ordem dos Doutores de Medicina do Brasil - ODMB, Doutor em Ciências Médicas e Cirúrgicas (h.c),

Pós-graduado em Clínica Medica - Medicina interna, Medicina e Fisiologia do Esporte/Exercício, Nutrologia e Nutromedicina, Fisiologia Humana Geral aplicada às Ciências da Saúde.

Escritor e Autor de Diversos Artigos na área de Medicina Geral, Medicina e Endocrinologia do Esporte, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Neurociência e Comportamento Humano.

Fundador-Gestor do e-Comitê Mundial de Médicos do Desporto e Exercício (Official World Group of Sports And Exercise Physicians), Fundador-Gestor Internacional de Cirurgiões Craniomaxilofaciais (The Official World Group of Craniomaxilofaciais Surgeons).

Comentários