O trabalho, liderado pelo neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, com participação do mestre em neuropsicologia Adriel Weber, propõe um modelo probabilístico que analisa o risco de casos de hantavírus da América do Sul chegarem à Europa por meio dos fluxos migratórios e turísticos.
A investigação concentra-se principalmente no Brasil e na Argentina, regiões consideradas hotspots epidemiológicos para a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (HCPS), doença que apresenta taxas de mortalidade elevadas. Segundo os autores, alterações ambientais, expansão agrícola, desflorestação e oscilações climáticas podem aumentar o contacto humano com roedores infectados, favorecendo novos surtos.
De acordo com o Dr. Fabiano, o principal objetivo do estudo não é gerar alarmismo, mas antecipar cenários epidemiológicos possíveis. “Vivemos num mundo extremamente conectado. Uma infecção que antes era interpretada como regional pode atravessar continentes em poucas horas através da mobilidade humana. A ciência precisa trabalhar com probabilidades e não apenas com eventos consumados”, explica.
O artigo destaca uma preocupação específica relacionada ao vírus Andes, identificado na Argentina e no Chile. Diferentemente da maioria dos hantavírus conhecidos, esta variante já demonstrou capacidade limitada de transmissão entre humanos em contatos muito próximos, especialmente em ambientes familiares e hospitalares.
Os autores desenvolveram um modelo estatístico simplificado para estimar a probabilidade de casos importados chegarem à Península Ibérica. A análise considera variáveis como volume migratório, incidência da doença nas regiões de origem, probabilidade de deslocamento durante o período infeccioso e capacidade diagnóstica dos sistemas de saúde europeus. Mesmo utilizando parâmetros conservadores, o estudo conclui que o risco acumulado ao longo dos anos não é desprezível.
Segundo o estudo, o maior problema pode não ser a quantidade de casos, mas a dificuldade de diagnóstico. Em muitos países europeus, sobretudo no sul da Europa, os sintomas iniciais podem ser confundidos com pneumonias virais comuns ou até com COVID-19, atrasando o tratamento adequado.
Além das complicações respiratórias e renais tradicionalmente associadas ao hantavírus, o Dr. Fabiano também chama atenção para possíveis repercussões neurológicas indiretas. “Processos inflamatórios sistémicos intensos podem afetar a barreira hematoencefálica e desencadear alterações cognitivas, neuroinflamação e mudanças comportamentais transitórias em casos graves. Esse é um ponto ainda pouco discutido fora dos ambientes especializados”, afirma.
Outro aspecto abordado pelo artigo envolve fatores sociais. Ambientes de habitação precária, elevada densidade populacional e exposição ocupacional em áreas rurais podem aumentar significativamente o risco de transmissão. Isso torna o fenômeno não apenas biológico, mas também socioepidemiológico.
O estudo recomenda que países como Portugal e Spain passem a incluir o hantavírus com mais frequência nos protocolos diferenciais para síndromes respiratórias graves em pessoas com histórico recente de viagem ou migração oriunda da América do Sul. Também sugere reforço laboratorial, treino clínico direcionado e integração do hantavírus em sistemas de vigilância epidemiológica.
Apesar do alerta, os investigadores reforçam que o cenário atual ainda é de vigilância preventiva. O próprio artigo conclui que a antecipação científica é a melhor estratégia para evitar respostas tardias diante de possíveis surtos futuros.

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