SAÚDE

Inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho também requer adaptação

Espaços devem ser alterados e equipes precisam de orientações específicas para promover integração

Inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho também requer adaptação Inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho também requer adaptação
Crédito: BANCO DE IMAGENS

A Organização das Nações Unidas (ONU)  estima que 10% da população mundial tenha algum tipo de deficiência. No caso da professora e tradutora Cristina Faraj, a deficiência motora teve origem no nascimento, devido à falta de oxigenação no cérebro por um curto período (anoxia). “Hoje tenho um problema de coordenação motora. É uma condição que me fez enfrentar bullying e preconceito, seja na formação escolar, seja na inserção do mercado de trabalho. Em alguns momentos tive vontade de tentar esconder essa limitação, mas hoje sou feliz pelas minhas conquistas”, afirma.

Cristina é formada em Letras (Inglês-Tradução) e ingressou no Estado logo na primeira vez em que prestou concurso público. Apesar do sucesso profissional, logo no início da carreira a professora teve dificuldades para conseguir um emprego e sentiu que a deficiência motora era uma das principais razões para as recusas.


Legislação e inclusão

São consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimento de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que impeça a participação plena e efetiva na sociedade, em igualdade de condições. No Brasil, o Decreto nº 5.296/2004 descreve os diferentes tipos de deficiência.

Além disso, a Lei nº 8.213/1991, conhecida como Lei de Cotas, prevê uma série de medidas com o objetivo de inserir e integrar pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Empresas a partir de 100 colaboradores têm a obrigação de empregar uma parcela de pessoas com algum grau de deficiência. A cota mínima varia entre 2% e 5%, dependendo do total de trabalhadores na empresa.

Para a fonoaudióloga do Hospital Paulista Christiane Nicodemo, no entanto, as empresas devem se preocupar em não apenas empregar a pessoa com deficiência, mas também integrá-la à empresa, respeitando suas dificuldades e promovendo suas potencialidades.

“Quando contrata e emprega um funcionário com deficiência, a empresa não está apenas cumprindo a lei. Está promovendo uma função social, humanitária. Para isso, é preciso que a área de Recursos Humanos tenha a sensibilidade de facilitar o ambiente de trabalho de acordo com a deficiência do novo colaborador, capacitar os gestores e os demais funcionários, de modo que a pessoa não se sinta acuada, preterida ou discriminada em seu cotidiano laboral”, avalia a especialista.

Cada forma e grau de deficiência requer adaptações específicas no ambiente de trabalho. Contratar um cadeirante para um local com escadas e sem elevadores/rampas, por exemplo, impede que o trabalhador interaja corretamente com os colegas e superiores e limita seu desenvolvimento.

 

Deficientes auditivos

No caso específico dos deficientes auditivos, a fonoaudióloga Christiane ressalta que um dos aspectos mais importantes é que o ambiente de trabalho – principalmente no espaço de quem tem alguma limitação – seja bem iluminado, com sinalizações claras e de fácil acesso. Além disso, é essencial que os outros funcionários sejam orientados sobre as formas corretas de interagir com o deficiente auditivo.

“É preciso sempre sinalizar a essa pessoa quando desejamos falar com ela. Dê um toque no ombro, se aproxime, fale de frente à pessoa. Ao sair para almoçar ou tomar um café, convide-a. Promova o deficiente auditivo ao convívio com o restante da equipe e evite informar os funcionários apenas pela linguagem falada. Invariavelmente, você irá se movimentar e a pessoa com limitação auditiva não conseguirá acompanhar a mensagem. Além disso, fique atento às próprias estações de trabalho. As divisórias precisam ser, no máximo, de acrílico para permitir que o deficiente auditivo tenha uma melhor compreensão da comunicação”, explica.

Nos últimos anos, iniciativas públicas e privadas têm oferecido cursos de capacitação para pessoas com deficiência. Um dos objetivos é afastar completamente uma das teses de muitas empresas que não cumprem a lei, ao alegarem que o mercado não oferece deficientes físicos capacitados.

“O governo de São Paulo vem promovendo cursos gratuitos de qualificação. A Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) também oferece um programa de cursos gratuitos. É muito importante que outros setores da indústria e de serviço desenvolvam iniciativas semelhantes, de modo a capacitar esses profissionais para um leque maior de funções”, diz Christiane.

 

Reabilitação

Quem tem algum grau de deficiência pode também reabilitar-se a partir de terapias específicas, aparelhos de auxílio e cirurgias que o ajudem a diminuir a limitação, seja ela qual for. Cristina destaca, no entanto, que a abordagem da reabilitação ao profissional com deficiência deve ser feita de um modo que respeite sua própria vontade, sua independência e seus interesses profissionais.

“Por exemplo, passei por uma escola em que sofri certo preconceito de alunos e colegas da docência por conta da minha limitação motora. A então diretora insistia constantemente que eu deveria passar pela readaptação. Para uma pessoa que tem alguma deficiência, isso não é algo fácil de ouvir. Até que um dia, sem qualquer aviso prévio, fui chamada a uma reunião na qual me informaram que eu teria de começar a readaptação. Fiquei sem reação, saí bem chateada. A readaptação me fez bem, mas a forma como foi conduzido esse pedido foi desgastante”, conta.

Independentemente do tipo e do grau de deficiência, é importante ressaltar que profissionais com alguma limitação podem realizar uma enorme gama de funções. Para isso, é preciso que a lei seja cumprida, mas também que empresas, gestores de recursos humanos e os próprios trabalhadores se conscientizem sobre a importância de inserir e integrar pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

“O trabalho tem também a função de ressignificar a vida da pessoa com deficiência. Uma cultura de inclusão permite que esses profissionais participem ativamente do ambiente de trabalho, compreendendo suas limitações, mas também cientes do quanto podem evoluir e crescer”, afirma a fonoaudióloga.

“Entendo que as pessoas devem se esforçar para evoluir, mas quem tem alguma dificuldade não pode ser deixado para trás. Fala isso como educadora e como alguém que tem uma limitação motora. É preciso promover essa inclusão e ajudar quem tem qualquer tipo de deficiência a caminhar lado a lado com as outras pessoas”, conclui Cristina.

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