SAÚDE

Pesquisa aponta que 9 em cada 10 pacientes com câncer têm sua rotina afetada pela dor crônica

Especialistas defendem que ter dor não é normal: existe tratamento e é preciso conscientizar a população e o poder público sobre o tema

Pesquisa aponta que 9 em cada 10 pacientes com câncer têm sua rotina afetada pela dor crônica

Apenas em 2016, estima-se que 600 mil novos casos de câncer sejam diagnosticados no Brasil[1] e, destes, 60% já estarão em estado avançado da doença, segundo o Ministério da Saúde. Pacientes com câncer exigem tratamento de alta complexidade: 50 a 70% deles sofrem de dor crônica1 e mais de um terço seja de alta intensidade1, levantando o interesse de todos, incluindo sociedades médicas e associações de pacientes, em discutir a questão.

Em levantamento recente[2], foi identificado que a dor crônica afetou a disposição de 89% dos pacientes oncológicos, fazendo com que eles passassem mais tempo em casa. Mais de 80% relataram que a dor afetou o desempenho no trabalho, muitas vezes levando à perda do emprego. Quando questionados sobre qual palavra descreveria melhor a convivência com esse sintoma os resultados foram: desânimo (40,4%), angústia (35,6%) e desespero (17,5%). Além disso, 52% entrevistados atribuem à persistência da dor o surgimento de outros problemas de saúde como depressão, ansiedade e aumento de doenças crônica e obesidade.

“A dor é um sintoma extremamente comum em quadros de câncer, no entanto, isso não significa que que faça parte do tratamento da doença, como mais da metade dos pacientes entrevistados (54,4%) acredita. A maioria não fala sobre dor com seu oncologista e sofre em silêncio desnecessariamente já que é possível investir no manejo da dor para alcançar uma melhora significativa da qualidade de vida. Por isso, é fundamental desconstruir mitos relacionados ao tema e buscar uma equipe multidisciplinar para que o paciente com dor crônica tenha apoio tanto medicamentoso quanto psicossocial”, comenta Dra. Sandra Caires, membro da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED) e diretora titular do Departamento de Dor e Responsável pelo Serviço de Cuidados Paliativos do A.C. Camargo Cancer Center.

Quanto às alternativas de tratamento para dor crônica, a Organização Mundial de Saúde (OMS) indica o uso de opioides como opção para casos de dor moderada e forte[3], de acordo com as escalas de mensuração estabelecidas globalmente. Segundo organizações internacionais, o Brasil está entre os 10 países com menor prescrição no mundo: “A análise de consumo de opioides faz parte, inclusive, dos critérios de Índice de Desenvolvimento Humano e é preocupante ainda termos tantas barreiras para o tratamento adequado da dor no país. Enquanto levantamentos internacionais apontam que a taxa ideal seria de 192,9 mg ao ano por pessoa, no Brasil temos apenas 7,8mg ao ano – 25 vezes a menos[4]”, reforça a especialista.

Ainda de acordo com o levantamento2, 54% dos pacientes com câncer que sofrem de dor crônica necessita do Sistema Único de Saúde (SUS) para seu tratamento. Dra. Caires Serrano destaca ainda que sociedade médica, pacientes e familiares aguardam parecer do Ministério da Saúde sobre a revisão do documento que padroniza o tratamento da dor crônica na rede pública – o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT). Entre fevereiro e março, foi realizada uma consulta pública que possibilitou o envio de sugestões para ampliar o acesso a diversos tipos de opioides, como a oxicodona, um medicamento da classe dos opioides com eficácia comprovada para o tratamento de dores decorrentes de doenças como câncer.

“Estamos esperançosos que com a união de esforços da sociedade médica, associações de pacientes e poder público a dor crônica possa ser cada vez mais discutida e que seu tratamento possa ser ampliado, de forma a proporcionar melhor qualidade de vida à milhares de pessoas que ainda sofrem com dor hoje no Brasil”, comenta a especialista.

Comentários