MATÉRIAS DE CAPA

Edição n°63: Herpes X Suplementos

Saiba detalhes sobre a doença que não tem cura e compreenda como os suplementos podem ajudar na prevenção e no tratamento

Edição n°63: Herpes X Suplementos Herpes X Suplementos
Crédito: BANCO DE IMAGENS

Herpes é um vírus que pertence à família chamada herpesviridae e é amplamente disseminado no mundo todo, tanto em homens, quanto em mulheres. Existem vários tipos de herpes, mas os mais conhecidos são: o vírus tipo 1, preferencialmente nos lábios; o tipo 2, preferencialmente na região genital – ambos causam a chamada herpes simples (ou simplex, HSV) –  além da herpes zoster ou cobreiro, uma doença causada pelo vírus tipo 3, Varicela-Zoster (VVZ), o mesmo que gera a catapora.

Segundo a dermatologista Lúcia Miranda, a herpes simplex é uma infecção viral comum, para a qual 99% da população adulta já adquiriu imunidade na infância e na adolescência, tendo infecção subclínica (assintomática) ou um único episódio, obtendo resistência ao vírus para toda a vida. De acordo com o infectologista Manuel Palácios, os vírus tipos 1 e 2 normalmente são associados com uma dermatite herpética, inflamação da pele e a formação de vesículas, com o acometimento de mucosas oral, labial e mucosas genitais.  

Doutora Lúcia Miranda explica que a herpes tipo 1 se caracteriza por vermelhidão, ardor e pequenas bolhas preenchidas com líquido claro, comumente na região dos lábios ou na parte interna da boca. Geralmente, o primeiro contato com o vírus ocorre durante a infância, por secreções orais originadas de tosse e espirro. Em seguida, o vírus se aloja em um neurônio e lá pode permanecer durante toda a vida do indivíduo, em um estado de latência, sem causar qualquer sintoma. Entretanto, ele pode reativar e voltar a provocar sintomas, principalmente em casos de queda da imunidade.  

Segundo o dermatologista Erick Omar, a primeira infecção causada pelo vírus tipo 1 (em crianças) costuma passar despercebida pelos pais, manifestando-se por uma febre baixa, mal-estar e inapetência. Mas, pode ocorrer a estomatite herpética, quadro de febre alta, lesões orais importantes e piora do quadro geral. “Costuma-se apresentar uma fase antes do surgimento das lesões, caracterizada por um ardor, queimação ou coceira na região acometida”, diz o médico.

A dermatologista Lúcia Miranda complementa que na herpes tipo 2 observa-se também vermelhidão, ardor e pequenas bolhas com líquido claro na região da vulva, pênis ou ânus, ou ainda em regiões como nádegas e virilha. Em geral, o primeiro contato com o vírus ocorre na adolescência ou início da vida adulta e as lesões podem ser intensas a ponto de provocar ardor para urinar e desconforto que impedem as relações sexuais. Além disso, a presença de lesões pela herpes tipo 2 aumenta o risco de contágio por outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV (vírus causador da aids).

“Herpes genital e labial são transmitidas, principalmente, pelo contato sexual. O vírus pode ser passado também de mãe para filho durante a gestação, e pode, inclusive, ficar incubado e nunca se manifestar, mas, mesmo assim, pode ser transmitido de uma pessoa para outra. Depois do primeiro contato, algumas pessoas apresentam repetidos quadros de herpes, o que caracteriza o herpes genital recorrente. Há, inclusive, quem relate desencadeantes bem identificados para essa manifestação, tais como exposição ao sol, estresse e período pré-menstrual”, diz Dra. Lúcia Miranda.

Na herpes zoster ou cobreiro, o vírus também permanece em latência durante toda a vida do indivíduo. A reativação ocorre na idade adulta, em pessoas com comprometimento imunológico, como os portadores de doenças crônicas (hipertensão, diabetes), câncer, AIDS, transplantados e outras. “Herpes zoster é transmitida somente quando as vesículas estão aparentes e quando há o contato com as bolhas. Excepcionalmente, há pacientes que desenvolvem herpes zoster após contato com doentes de varicela e, até mesmo, com outro doente de zoster, o que indica a possibilidade de uma reinfecção em pacientes já previamente imunizados. É também possível uma criança adquirir varicela por contato com doente de zoster. Herpes zoster pode levar a complicações e outras formas clínicas graves, inclusive levar à morte”, esclarece a dermatologista Lúcia Miranda.

Ainda sobre a herpes tipo zoster, o infectologista Manuel Palácios conta que ela tem uma predileção por feixes nervosos, que têm a ver com a sensibilidade da pele e se manifesta também como vesículas de cor avermelhada e muito dolorosas na pele. Sobre esse ponto, Dr. Erick Omar também diz: “Quando ocorre a sua reativação, herpes zoster acomete apenas um lado do corpo, caracterizando áreas de pele inervadas por um determinado nervo, conhecidas como dermátomos”, enfatiza.

A dermatologista Lúcia Miranda ressalta que, enquanto as vesículas estiverem presentes com seu conteúdo líquido, – tanto na herpes simplex, quanto no vírus Varicela-Zoster – elas são infectantes. Um simples contato das mãos com as vesículas pode transferir o vírus para outras áreas do corpo, inclusive os olhos e também para parceiros em contato de pele com pele ou mucosa. Quando as vesículas rompem, surgem pequenas ulcerações (feridas rasas) cobertas de crostas e, depois, há reepitelização da pele ou mucosa, sendo que nessa fase não é mais contagiosa.

O Dr. Erick Omar afirma que o diagnóstico de herpes é clínico, através da consulta e exame das lesões. Eventualmente, o exame de sangue e a análise da lesão podem ser necessários no caso de dúvidas ou necessidade de confirmação para outros tratamentos.

A Dra. Lúcia Miranda destaca ainda que, em geral, as infecções herpéticas em indivíduos com imunidade normal duram entre sete a 14 dias, porém, sempre um médico deve ser consultado para se certificar do diagnóstico, bem como indicar o melhor tratamento para aquela forma de apresentação da doença.  

Por isso, o infectologista Manuel Palácios elucida que se trata de um vírus facilmente transmissível, mas pouco letal. “Pessoas com imunidade boa vão apresentar simplesmente um quadro muito benigno e criarão anticorpos contra o vírus herpes que vão proteger praticamente durante a vida toda das formas graves da doença”, diz.  

Conforme doutor Palácios, quando existe infecção aguda por herpes em pacientes imunodeprimidos, como é o caso de pacientes com neoplasias, com HIV, por exemplo, esses pacientes podem reativar o vírus herpes, pois ele não é eliminado do nosso corpo, inserindo-se no nosso genoma. “A reativação pode ocorrer a qualquer momento e, muitas vezes, se faz com formas graves da doença, podendo atingir o sistema nervoso central, causando uma encefalite ou uma meningocefalite. Pode acometer a retina e causar retinite por vírus da herpes. Pode causar, ainda, uma conjuntivite herpética. Pode afetar os órgãos como fígado, baço e intestino. Nesses casos, precisamos tratar a doença para conseguir salvar o paciente”, explica o infectologista.

 

PREVENÇÃO E TRATAMENTO

O infectologista Manuel Palácios alerta que não existe uma forma eficaz de prevenção, até porque não há uma vacina para o vírus herpes. Às pessoas que estejam com a doença de forma ativa, sempre se recomenda evitar contato íntimo direto com outras pessoas que sejam suscetíveis, que nunca tenham tido contato com herpes. Uma forma é fazer a sorologia para saber se já teve contato, principalmente em gestantes. Geralmente, mulheres grávidas precisam fazer a pesquisa, pois um quadro de herpes agudo durante a gestação pode comprometer o feto.

Ainda sobre a prevenção, o dermatologista Erick Omar completa: “A prevenção consiste em evitar o contato (beijos ou manipulação) em pacientes com lesões ativas e, para prevenir a transmissão sexual, sempre usar preservativos”, orienta o especialista.  

Segundo o Dr. Erick, para que seja realizado o tratamento adequado, é fundamental o diagnóstico correto. “Os tratamentos variam desde a aplicação de cremes no início dos sintomas, até o uso de medicamentos orais por alguns dias. No caso da reativação do vírus Varicela-Zoster, sempre é importante, além do tratamento correto, a investigação médica do possível desencadeante”, diz o especialista.  

De acordo com a dermatologista Lúcia Miranda, o tratamento da herpes geralmente é feito com retrovirais. Os tratamentos tópico e oral são fundamentais e devem ser iniciados assim que começarem os sintomas ou quando começarem a surgir as erupções. O aciclovir é o principal medicamento empregado no tratamento da doença, quanto mais precoce for a utilização da droga – tópica, oral e venosa – melhores serão os resultados obtidos. Em relação ao tratamento tópico, a médica informa:  

“Atualmente, também se preconiza o uso de tópicos nas recorrências embora com efeitos menores que na primo-infecção (no caso do H. genital). É importante salientar que o uso tópico não previne novos surtos, não é capaz de abrandá-los com o tempo ou aumentar o tempo entre um surto e outro. Agentes antivirais imunomoduladores também são utilizados. Após o desaparecimento das lesões, trata-se o sistema imunológico, podendo ser aplicados diversos medicamentos e suplementos”, diz a dermatologista.  

 

HERPES X SUPLEMENTOS ALIMENTARES

O dermatologista Erick Omar diz que a lisina e a glutamina são componentes usados para a prevenção das recidivas de herpes, pois ajudam na diminuição do aparecimento das crises.

Desta forma, a nutricionista esportiva Caroline Yoshioka afirma que a suplementação com a lisina ajudará no processo de recuperação, pois diminui a replicação viral e a suplementação com a glutamina faz com que a imunidade fique mais alta, prevenindo o aparecimento de herpes. “Acredito que em todos os casos, a suplementação será benéfica para o tratamento da herpes, podendo acelerar o processo de recuperação, evitando novas feridas”, destaca a nutri.  

Sobre isso, a dermatologista Lúcia Miranda enfatiza que o cloridrato de lisina é um aminoácido essencial, presente em alguns alimentos, mas que o corpo humano não consegue produzir. “Estudos mostram que a sua administração está relacionada com menor risco de recidiva em pacientes portadores de herpes vírus simplex HSV e a substância apresenta um efeito expressivo sobre a redução da replicação do herpes vírus simplex-1, assim como reduz o tempo de cura das lesões”, diz.  

Ainda segundo a dermatologista, a glutamina produz anticorpos pelas células do sistema imunológico, prevenindo o aparecimento da doença. Conforme já dito anteriormente, as crises de herpes surgem principalmente quando há uma queda/enfraquecimento do sistema imunológico, por isso, uma das principais formas de garantir que a herpes não volte a aparecer é fortalecendo esse sistema e a glutamina auxilia nesse processo. “Produzida pelo organismo, a glutamina é um aminoácido necessário para a saúde. Entretanto, os níveis naturais desse aminoácido tendem a cair sempre que a pessoa é submetida a uma rotina estressante ou a uma dieta pobre em nutrientes ou ainda malhação em excesso e, nesses casos, a suplementação em cápsulas ou em pó se faz extremamente necessária”, aconselha Dra. Lúcia Miranda.  

 

ALIMENTAÇÃO

A nutricionista esportiva Caroline Yoshioka afirma que a alimentação pode interferir no tratamento ou desencadeamento da herpes. Segundo ela, alguns estudos mostram que dois aminoácidos  essenciais – que não são produzidos pelo organismo –, a lisina e a arginina, têm relação direta com o surgimento ou não de novas feridas. “Existem alguns alimentos fontes de lisina como carne vermelha, peixe, leite e derivados que ajudam a prevenir o reaparecimento da herpes. Além disso, esses alimentos citados também são fontes de glutamina, que é um aminoácido sintetizado pelo organismo e ajuda aumentar a imunidade”, lembra a profissional. Outros alimentos que também auxiliam no tratamento da herpes são: ovos, feijão, ervilha e lentilha.  

Por outro lado, a nutri Caroline Yoshioka alerta que a arginina é um aminoácido não essencial, que favorece o aparecimento de novas feridas. Portanto, os alimentos que contêm arginina devem ser evitados por quem tem o vírus do herpes. Exemplos que podem ser citados são as oleaginosas, como amendoim, avelã, e nozes, chocolate (cacau), gergelim, semente de girassol e aveia também não devem ser consumidos.

 

ATIVIDADES FÍSICAS

De acordo com o educador físico Flávio Dias, os exercícios físicos de todos os tipos se mostram ótimos aliados no processo de prevenção da recorrência da herpes. É possível utilizar os treinos como uma válvula de escape para aliviar o estresse, tanto físico, como mental, melhorar a condição física para não se sentir cansado e, principalmente, para fortalecer o sistema imunológico.  

“Mas, é preciso ter cuidado, pois as atividades físicas podem ser o ‘mocinho’ ou o ‘vilão’, dependendo da estratégia. Estudos recentes reforçam a hipótese de que a contração muscular estimula a produção de miosinas. As miosinas são enzimas anti-inflamatórias que agem diretamente no sistema imunológico, tornando-o mais resistente às doenças, inclusive à herpes. Porém, o excesso de exercícios físicos e intensidade exagerada podem levar o portador ao estresse, fadiga e debilidade imunológica, favorecendo a recorrência do vírus e estimulando o aparecimento de lesões e de outros sintomas. Além disso, persistir e seguir a rotina de treinos quando há recaída dos vírus, também compromete a recuperação e pode piorar os sintomas”, esclarece o personal trainer.  

Ainda segundo Flávio Dias, a recomendação é que o portador de herpes, quando não estiver apresentando os sintomas do vírus, mantenha uma rotina de exercícios de maneira adequada à sua condição física e busque comer alimentos mais alcalinos, como frutas e verduras. “Uma ótima dica é priorizar os exercícios que promovam a contração muscular com pesos, como a musculação. Esse tipo de atividade irá melhorar o sistema imunológico em paralelo a outras possíveis atividades que a pessoa queira fazer, como corrida, ciclismo, crossfit, treinamento funcional, pilates, entre outros. Se estiver em período de recorrência do herpes, a recomendação é cessar os exercícios e procurar imediatamente o médico para começar o tratamento. Só retornar aos exercícios após a alta médica, e retornar de maneira mais suave, tanto na quantidade, quanto na intensidade, para não sobrecarregar o organismo, evitando assim futuras recaídas”, finaliza o educador físico Flávio Dias.  

 

FONTES CONSULTADAS:

Caroline Yoshioka (CRN 43331): Nutricionista esportiva e consultora da Ajinomoto do Brasil. Graduada em Nutrição pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Pós-graduada em nutrição aplicada em exercício físico na EEFE/USP, mestre USJT/SP, doutoranda em esporte pela Unicamp. Ex-atleta da seleção brasileira (2002-2005). Nutricionista dos atletas Arthur Nabarrette Zanetti e Diego Hypolito, contratada pelo COB/Time Brasil.

 

Erick Omar: Dermatologista da AE Skin Center de São Paulo. Formado pela USP.  

 

Flávio de O. Dias (CREF 114256-G/SP): Licenciatura e Bacharelado em Educação Física pela Universidade Paulista. Pós-graduado em Fisiologia do exercício no treinamento resistido pelo Instituto Biodelta- FM USP. Responsável técnico, sócio e personal trainer do centro de promoção à saúde Training for Health. Responsável técnico da academia Ábaco Gym - São Bernardo do Campo. Praticante de musculação há mais de 20 anos.

 

Lúcia Miranda: Dermatologista MD, PhD especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica e Academia Americana de Dermatologia.

 

Manuel R. Palácios: Infectologista do Hospital Anchieta – Brasília/DF. Infectologista pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela UnB, MBA em Gestão em Saúde e Controle de Infecção pelo Inesp. Infectologista do Centro de Segurança Assistencial do Hospital Anchieta (Brasília/DF) e do Núcleo de Controle de Infecção Hospitalar do (HRT) Taguatinga/DF. Preceptor de Residência Médica da ESCS na Unidade de Medicina Interna do HRT. Ele possui um canal no youtube, sobre doenças infecciosas, para profissionais da saúde: Dr. Infectron.  

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